Arquivo FolhaTom Zé: ‘‘Hoje, vendo mais discos na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Japão do que no Brasil’’Depois de passar por uma espécie de ostracismo artístico, o cantor e compositor Tom Zé está sendo redescoberto. No dia 17 de setembro, o Grupo Corpo estreará seu novo balé com trilha sonora dele e de José Miguel Wisnik. Além disso, o músico David Byrne deverá lançar até o fim do ano um disco de Tom Zé no exterior, pelo selo Luaka Bop. Em fins dos anos 80, Byrne, então líder do grupo de música pop americana Talking Heads, já havia apresentado o artista baiano para o mundo ao lançar o LP ‘‘Estudando o Samba’’, gravado em 1976.
‘‘Hoje, vendo mais discos na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Japão do que no Brasil’’, comemora o cantor, que também tem feito shows pelo País. Recentemente, a polícia teve de conter uma multidão que queria ver seu show em Florianópolis, Santa Catarina, e não conseguiu ingresso. Durante suas apresentações, o cantor e compositor resolveu vender exemplares de seu CD ‘‘The Hips of Tradition’’ (As Ancas da Tradição), lançado nos Estados Unidos. A primeira cota, de 400 discos, esgotou-se em três shows.
‘‘Estou contente com o reconhecimento da minha obra, inclusive no Brasil’’, comenta Tom Zé. ‘‘Pensei que fosse fazer shows para casas vazias, mas caí do cavalo’’. Ele começou a se consagrar ao vencer o 4º Festival da Música Brasileira, em 1968, com ‘‘São Paulo, Meu Amor’’. Foi seu amigo Caetano Veloso quem aconselhou esse baiano de Irará a se mudar de Salvador para São Paulo. Onze anos antes, ele fazia sua estréia artística no programa ‘‘Escada para o Sucesso’’, da TV baiana, quando cantou ‘‘Rampa para o Fracasso’’ e venceu o concurso de calouros.
Corintiano profissional - Até hoje Tom Zé guarda uma lembrança muito especial de seu primeiro dia em São Paulo. ‘‘Foi inesquecível’’, diz. ‘‘Conheci Torquato Neto (poeta morto em 72), ouvi Sgt. Pepper s Lonely Hearts Club Band (LP dos Beatles) e assisti a ‘‘O Rei da Vela’’ (peça de Oswald de Andrade, montada por José Celso Martinez Corrêa). Foi tudo no mesmo dia’’.
Com formação superior em música, 60 anos de idade e 40 de carreira, Antônio José Santana Martins diz que só liga o rádio para ouvir futebol. Declara-se um ‘‘corintiano profissional, daqueles que torcem para outro time quando a ocasião demanda’’. Elogia o ex-jogador César Lemos, ex-Palmeiras e ex-Corinthians, ‘‘o primeiro a comemorar um gol com a torcida’’, e Neto - para quem compôs um hino-homenagem em 1990, quando seu time foi campeão brasileiro de 1990. ‘‘Se ele tivesse se cuidado melhor, seria um atleta capaz de rivalizar com Maradona’’.
Saudosista, condena a extinção dos bondes em São Paulo e a situação das estradas de ferro no Brasil. Diz não sentir o peso dos anos sobre os ombros, garantindo que fica ‘‘dez anos mais moço’’ cada vez que faz show em algum colégio ou universidade, para a comunidade estudantil. E cita o escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962), Prêmio Nobel de Literatura, para definir seu estado de espírito: ‘‘Quando se é jovem, se é eterno’’.

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