Destaque nas redes estadual, municipal e particular de ensino de Londrina, o projeto Folha Cidadania, da Folha de Londrina, começa a plantar as primeiras sementes fora do Paraná passados quase dez anos de sua criação, em 94. Na semana passada, duas jornalistas do jornal Diário de Osasco, da Grande São Paulo, vieram conhecer a iniciativa na prática. Elas viram como o projeto funciona através de visitas a duas escolas de Londrina e uma de Cambé. As jornalistas pretendem adaptar a idéia da Folha Cidadania para a realidade dos leitores paulistas.
  Na escola municipal João Garcia Villar, no jardim Panorama (zona leste), elas elogiaram o Cidadania e destacaram alguns pontos que, acreditam, torna mais próxima a relação do jornal com o público. ‘‘O projeto possibilita uma interação, uma espécie de mão dupla entre a mídia e o leitor’’, afirma a jornalista Simone Perez. A colega, Simone Trino, acrescenta: ‘‘Os adeptos do projeto estão formando uma geração de pessoas que, além de ter o hábito da leitura mais arraigado, ainda entenderão aquilo que será lido e formarão argumentos sobre a sociedade em que vivem’’, analisa.
  Na escola visitada, os frutos da utilização do Cidadania como parte da política pedagógica são colhidos diariamente – desde a interpretação de textos, passando pela redação e questões geográficas e históricas relativas ao Estado, ao Brasil e ao mundo. Apesar da aparentemente complexa rede interdisciplinar que a envolve, a atividade já faz parte da rotina semanal dos alunos da quarta série. Sempre em duplas, os alunos trabalham com as edições de terça-feira da Folha de Londrina em discussões que muitas vezes vão além da sala de aula.
  A professora Luciana Lorrenzzetti conta que, a cada semana, os pequenos (a maioria, na faixa dos 10 anos) elegem a matéria que mais lhes agrada para ser exposta em sala com sugestões e críticas. Uma outra matéria é escolhida como tema da discussão. Os próprios alunos propõem questões e formulam respostas. Foi assim, por exemplo, com a matéria da última terça sobre os dois carros-bomba que explodiram em Bombaim, na Índia, um dia antes, matando 46 pessoas e deixando outras 100 feridas. ‘‘Pegamos esse texto (publicado no caderno Mundo, da Folha) e falamos sobre os carros e a função deles na sociedade, destacando as demais notícias relacionadas de alguma forma ao trânsito’’, explicou a professora. Um dos motivos da escolha foi tornar mais proveitosa a visita que eles farão esta semana à Escolinha de Trânsito da Polícia Rodoviária. O desconhecimento de algumas palavras do texto representa uma dificuldade mínima para os alunos:‘‘Dificilmente eles mantêm a atenção em um único tema e em um único caderno’’, confessou Luciana.
  A conscientização parece uma lição de fácil entendimento. ‘‘É muito triste ler esse tipo de coisa, porque os carros foram feitos para o transporte, e não para explodir e matar pessoas’’, comentou Yuri Tetsuo Silva, de 10 anos. O colega Danilo César Carvalho, 10, não pensa diferente. ‘‘Para que matar sem necessidade?’’, questiona.
  Jornal não serve só para ler: na escola, as crianças também podem recortar as matérias que mais lhes agradam e a oportunidade é aproveitada de imediato. E aí começam a aparecer as tendências de cada um, seja para o esporte, a cultura, a economia e – quem diria – os negócios. ‘‘Gosto de ler os classificados, pois meu avô quer comprar um carro, eu quero comprar um animalzinho e minha mãe me prometeu um computador’’, enumera Yuri. Tem quem prefira dar vazão a outras habilidades: ‘‘Além do que a professora pede, leio sempre, também, caderno de esportes, pois ele me incentiva a praticar o futebol, que eu mais gosto’’, conta Ícaro Proença Fogaça, 10, apoiado de imediato pela vizinha de grupo Bárbara Rayssa Carvalho, 10, fã da ginástica rítmica: ‘‘Amei quando saiu reportagem sobre elas (as ginastas da seleção brasileira) no Pan-Americano (de Santo Domingo). Guardei tudo em uma pasta só minha’’, lembra, orgulhosa.
  De acordo com a supervisora de ensino, Dirce Sala Suckow, as aulas com uso do jornal – desenvolvidas pela escola desde o início do projeto da Folha – não devem terminar tão cedo. ‘‘Os benefícios são consideráveis. Não só a leitura dos alunos melhorou, como eles também estão mais atualizados e críticos, com progressos consideráveis na escrita’’, justifica.

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