Recolhendo contos machadianos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de outubro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
As microfilmagens de livros e jornais brasileiros da virada do século, arquivados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, estão sendo de grande valia para o professor e estudioso da obra de Machado de Assis, o inglês John Gledson. No momento ele inicia uma edição completa de todos os contos do escritor brasileiro, que ele compara à grandeza de Harry James.
Foi nos arquivos da Biblioteca Nacional que o meticuloso tradutor buscou o Machado mais autêntico. A gente tem que voltar às publicações originais, porque as mais recentes não são confiáveis, dispara. Botam parágrafos onde não existem, omitem palavras que não entendem... Nisso tudo há preguiça e também, desleixo, diz com todas as palavras, no mais perfeito Português.
O professor acredita não haver textos de Machado escondidos sob a poeira do tempo, à espera de serem descobertos. Ele imagina que a obra completa terá 190 contos que, sem sombra de dúvida, pertencem ao escritor carioca. Serão incluídos outros 12 duvidosos, recolhidos da imprensa, que se imagina sejam do mesmo autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ainda em seus verdes anos.
PatinandoJohn Gledson veio semana passada a Curitiba especialmente como participante do Perhappiness 97. Autografou os livros A Semana: Crônicas 1892-1893 Machado de Assis e Bons Dias, pela Editora Hucitec. Esta foi a primeira vez que veio à cidade; anteriormente circulou por Londrina e Maringá, para dar palestras.
Sobre a tradução que fez ao inglês de Dom Casmurro ele comparou o trabalho ao risco de patinar sobre gelo fininho. Isto porque a literatura machadiana é pródiga no tom psicológico e no retrato social brasileiro. A ironia, as intenções dúbias das frases e muitas vezes o amargor do escritor nem sempre ganham as mesmas cores e amplitude na simples mudança do idioma.
Antes de chegar a Machado, foi Carlos Drummond de Andrade que recebeu a atenção de John Gledson. Se tiver que escolher um poeta e um escritor brasileiros com o raro dom da universalidade, o professor não titubeia: eles são Drummond e Machado de Assis. Os dois têm alguma coisa de local, mas também são universais.
Outros nomes nacionais citados por ele, sem necessariamente ocuparem o Olimpo, foram os de Caio Fernando Abreu (gosto muito, muito mesmo), Dalton Trevisan, Clarice Lispector e Ivan Ângelo (mais ou menos). Talvez tenha me esquecido de alguns, mas esses já bastam, finalizou.


