Ao olhar para trás na história da televisão brasileira, pode-se destacar inúmeras novelas que foram grandes sucessos de audiência. O fato de serem apostas que já deram certo e que, muitas vezes, ainda vivem na memória afetiva do público acaba atiçando as emissoras à tentação de adaptá-las. Não é à toa que a teledramaturgia vive um período marcado pelo "boom" de "remakes". Prova disso é que atualmente os três canais líderes de audiência, e os únicos abertos que exibem folhetins, estão em fase de produção de obras adaptadas. A Globo com "Saramandaia", o SBT com "Chiquititas" e a Record com "Dona Xepa". Sem contar com as segundas versões que já estão no ar, como "Guerra dos Sexos" e "Carrossel", além das que foram exibidas recentemente como "Gabriela", "Rebelde" e "Ti-Ti-Ti". "Eu considero o 'remake' uma reinterpretação de alguma obra", pondera Walcyr Carrasco, autor da segunda versão de "Gabriela".
Entretanto, o êxito das primeiras versões dos folhetins entre os telespectadores não é garantia de sucesso para as adaptações. Muitas vezes porque a trama, por ser datada – já que foi escrita há anos –, acaba não convencendo nos dias de hoje. Como é o caso de "Guerra dos Sexos", escrita e reescrita por Silvio de Abreu. Quando gravada em 1983, a obra retratava de maneira cômica o espaço que a mulher vinha ganhando no mercado de trabalho e, consequentemente, a disputa que esse fato gerava entre os gêneros. Mas as mulheres praticamente já conquistaram a igualdade com os homens em termos profissionais e o tema já não empolga mais a quem assiste à produção. "Eu comecei a história a partir de uma nova ideia, que foi a morte dos protagonistas Charlô e Otávio. Mas a adaptação tem os mesmo personagens e situações parecidas, só que escritas para os novos intérpretes", explica Silvio de Abreu.
Ao que parece, o essencial na produção de um "remake" é manter o texto o mais atualizado possível, mesmo seguindo a linha autoral da primeira versão. Esses foram os casos, por exemplo, de "Rebelde", "Carrossel" e "Ti-Ti-Ti". A novela "teen" originalmente mexicana teve seus direitos comprados pela Record. Com a adaptação de Margareth Boury, a obra caiu no gosto dos adolescentes e teve fôlego para sustentar uma segunda temporada. Também importado do México, só que dessa vez pelo SBT, "Carrossel", assinado por Íris Abravanel, conseguiu alcançar o propósito para que veio: conquistar o público infantil. E "Ti-Ti-Ti", recriada por Maria Adelaide Amaral, marcou uma média de 30 pontos de audiência, bom índice para o horário das sete da Globo. Mesmo tendo conseguido um reconhecimento que seu colega de emissora não atingiu ainda com o "remake" de "Guerra dos Sexos", a autora confere a Silvio de Abreu parte de seu sucesso. "Como me ensinou Silvio de Abreu na novela 'Anjo Mau', temos de aproveitar a ideia principal e escrever a nossa própria novela. Foi o que eu fiz em 'Ti-Ti-Ti' e deu certo", revela Maria Adelaide Amaral.
Entre as "novidades" que estão por vir, "Saramandaia" e "Dona Xepa" vão se diferenciar de "Chiquititas" no quesito de liberdade autoral. Enquanto as duas primeiras, adaptadas respectivamente por Ricardo Linhares e Gustavo Reiz, terão as histórias originais apenas como fio condutor inicial, a novela infanto-juvenil seguirá o modelo de sua antecessora, "Carrossel", também escrita por Íris Abravanel, e contará a mesma trama de sua primeira versão. "Eu tenho toda liberdade para escrever como quiser, mudando o que acho que deve mudar e mantendo o que acredito que ainda funciona", conta Ricardo Linhares. Mas os dois autores, mesmo mudando certos elementos das novelas, não têm medo das comparações. "As comparações são inevitáveis, mas cada autor tem sua forma de contar. Acho interessante o público conhecer várias versões da mesma obra", conclui Gustavo Reiz.


Apenas originais
Mesmo com a atual febre dos "remakes" dominando o cenário televisivo, ainda existem autores que não topariam adaptar uma novela. Gloria Perez, por exemplo. No ar com "Salve Jorge" no horário nobre da Globo e conhecida por ter um padrão autoral em seus folhetins – tramas recheadas de "merchandising social" e multiplicidade de culturas –, ela prefere criar algo do zero a ter de trabalhar com uma obra já existente. E não aceitaria nem reescrever uma de suas próprias produções. "Nunca pensei em fazer um 'remake' e nem gostaria. Fica difícil recriar algo que tive prazer em escrever. E como eu não mudaria nada em minhas novelas, não faria sentido refazê-las", argumenta.
Outro dramaturgo que segue o mesmo pensamento é Miguel Falabella. Autor e protagonista de "Pé na Cova", assim como na maioria de suas criações, ele repudia a ideia de adaptar uma obra antiga. "Eu tenho horror de 'remake'. Não gosto de coisa repetida, vou sempre para frente", enfatiza Falabella.

Instantâneas
# "Saramandaia" é o quinto "remake" seguido produzido pela Globo no período de três anos.
# O diretor Ivan Zettel, contratado pela Record, já está ficando "expert" em adaptações. Sem muito descanso após dirigir "Rebelde", ele já está no comando de "Dona Xepa".
# Iris Abravanel chegou a escrever dois "remakes" ao mesmo tempo. Enquanto finalizava "Carrossel", já havia começado o roteiro de "Chiquititas".
# A novela "Tieta", sucesso nos anos 1980, já está cotada para virar um "remake" e deve ir ao ar em 2014.

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