É curioso, mas as bolinhas de plástico de antitranspirantes de roll-on são perfeitas para fazer os olhos de bonecos de material reciclável. As tampinhas plásticas de refrigerante também dão um efeito especial ao olhar. E as sacolas plásticas, quem diria, são ideais para fazer a estrutura do corpo que precisa ser muito maleável.
Foi aproveitando os mais diversos materiais recicláveis que a dupla de atores de São Paulo Márcia Fernandes, 32 anos, e Cléber Laguna, 36 anos levaram um pouco de fantasia, conhecimento e diversão para moradores da Vila Marízia (Centro) e do Jardim Novo Amparo (região Leste). Em locais improvisados, realizaram a ''Oficina de Eco-Bonecos'', um dos 12 Projetos de Maio que estão sendo viabilizados pelo Festival Internacional de Londrina (Filo). O objetivo é mobilizar a comunidade local para que esta se sinta motivada a dar continuidade aos projetos culturais após o encerramento do festival.
Ontem de manhã centenas de crianças se divertiram com as apresentações elaboradas pelo grupo participante do Novo Amparo. Alunos da Escola Municipal Elias Kawan e da creche municipal do bairro ficaram encantados com um mundo de fantasia que além de bonito, dá uma lição de ecologia.
''A gente aprende que dá para aproveitar muita coisa que é jogada no lixo. Tudo que usei para construir a minha boneca foi achado no lixo e descobri que uma coisa velha pode virar luxo'', afirmou a estudante Ana Karoline Luciano, 9 anos, que participou do projeto. Ela e suas amigas confeccionaram a boneca ''Carla Perez'', que deu um show ao dançar a seis mãos para controlar todos os movimentos de ''É o Tchan!''. ''Eu tinha o CD e foi nossa a idéia de fazer essa boneca'', explicou a aluna, que já tinha participado de uma oficina de bonecos dentro do Projeto Viva Vida, organizado pela Prefeitura.
A acompanhante Marilene Pereira de Araújo Souza, 45 anos, também aprovou a iniciativa. Pela primeira vez aprendeu a confeccionar bonecos feitos de material reciclável, entre eles um pato de sacolas plásticas. Na encenação, ele também manipulou uma centopéia e um rato montados por outros participantes. No teatro de bonecos compartilhar as criações também faz parte da brincadeira lúdica. ''Foi muito bom ter participado da oficina. Não tinha idéia de como daria para aproveitar esses materiais. O meu desejo é que esse trabalho continue'', disse.
Segundo os atores, que frequentemente aplicam essa oficina em diversas cidades do interior, é comum as comunidades acabarem se mobilizando e continuar os projetos. ''As pessoas precisam ser estimuladas. Ter a oportunidade de conhecer coisas novas'', comentou Laguna.
Na Vila Marízia, a oficina foi realizada ao lado da Central de Triagem de recicláveis mantido pela ONG Esperança. Além do valor monetário do material, os atores também apresentaram o potencial lúdico desses objetos. Em uma visita ao local, voltaram com garrafas plásticas de alvejantes que acabaram se tornando um grande boneco articulado, batizado de ''rapper''. O plástico cortado também deu forma às pétalas de rosas feitas com jornal, entre outros trabalhos.
''O material que usamos não é uma estrutura tradicional, mais que a forma perfeita o interessante é descobrir o teatro de animação e seu potencial, que vai do realismo ao surreal. O limite é a imaginação. É uma brincadeira onde tudo pode ser possível'', destacou Laguna.
Ele salientou que é muito comum no início do trabalho as pessoas associarem o teatro de bonecos a ''coisa de criança''. ''Mas logo isso passa e também se encantam com a fantasia, que não tem idade.''
A atriz Márcia Fernandes ressaltou a importância do festival viabilizar as oficinas para aumentar o acesso das pessoas de comunidades carentes a eventos culturais. ''Essas pessoas não têm contato com a arte. O mais importante é a sobrevivência e quase não têm tempo de apreciar uma música bonita, fazer coisas que dão prazer. Com os bonecos, puderam sentir alegria, voltar à infância, esquecer um pouco das obrigações. É um alimento para o espírito'', ponderou Márcia.
A dona de casa Maria de Fátima Freire, 25 anos, que prefere ser chamada de ''Liu'', é uma aluna assídua. Sua mãe e duas irmãs trabalham na separação de material reciclável e pela primeira vez confeccionou bonecos. ''Achava que não iria gostar, mas estou adorando. Não sei o pessoal do bairro vai dar continuidade, porque a maioria quer fazer coisas que dêem dinheiro. Eu não. Eu gosto de aprender'', argumentou.
Nesta sexta-feira, a partir das 18h30, os dois grupos de ''Eco-Bonecos'' participam de apresentação juntamente com integrantes de outros projetos no Centro Cultural da Zona Norte. No domingo, às 10 horas, no Calçadão, em frente ao Banco do Brasil, também tem apresentação com os bonecos recicláveis. A expectativa é que alunos de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que trabalharam como acompanhantes da oficina, dêem continuidade ao trabalho.

mockup