O pop nacional, enquanto fenômeno de mercado, chegou aos seus quinze anos com a tarimba e o cinismo dos velhacos. Já com uma extensa ficha de contribuições ao cancioneiro popular brasileiro, o gênero parece se estabelecer como tradição e aspirar a um lugar mais nobre na escala hierárquica musical do país.
Convém notar, entretanto, que o padrão de música radiofônica de fácil digestão tornou-se a única via de afirmação e ascensão aos músicos do gênero. Perdeu-se, no caminho, o espírito aventureiro da experimentação estética. A canção acessível tornou-se única garantia de sucesso, fora da qual restaria o desprezo do público, algo que de fato se comprovou ao longo dos anos.
ReproduçãoSiderado:Lobão foi ignorado ao misturar rock e escola de samba. Os Paralamas venderam meia dúzia de cópias de seu álbum Severino, no qual abraçavam uma mistura de ritmos estranha a seus trabalhos anteriores. Os Titãs quase sucumbiram ao fim do grupo depois de lançar os álbuns Tudo ao Mesmo Tempo Agora e Titanomaquia, os mais pesados de sua trajetória.
Diante do fracasso de vendas, todos eles deram meia-volta recorrendo às fórmulas anteriores consagradas. Como uma camisa-de-força, o formato de canção palatável une a resignação artistas, críticos e público. O discurso da eficiência, tão caro aos economistas, bateu às portas do pop. A geração 90, escolada na experiência dos antecessores, não escapa da regra. É só conferir os novos álbuns das bandas mineiras Skank e Jota Quest, intitulados respectivamente Siderado e De Volta ao Planeta, ambos lançados pela Sony Music.
DivulgaçãoJota Quest: estética black music sem acanhamentoO Skank aprimora sua fórmula bem-sucedida de misturas rítmicas com uma produção encorpada assinada, desta vez, por Paul Ralphes (da banda inglesa Bliss) e John Shaw (engenheiro de som da banda UB-40). Lançado simultaneamente no Brasil, América do Sul e Portugal, o disco chega às lojas como o primeiro trabalho de uma banda brasileira mixado nos lendário estúdio Abbey Road, de Londres.
Lotado de hits potenciais, o CD traz pelo menos 7 ou 8 faixas irresistivelmente popentas, entre as quais despontam ‘‘Resposta’’ (balada, com letra de Nando Reis, executada à exaustão nas rádios), ‘‘Marginal Tiet꒒ (com uma batidona diferente de tudo o que a banda já produziu), ‘‘Os Homens das Cavernas’’ (ska com guitarras de surf-rock) e principalmente ‘‘No Meio do Mar’’ (canção gingada com participação do grupo instrumental Uakti).
ReproduçãoDe Volta ao PlanetaTambém fugindo de qualquer ousadia, o Jota Quest - que abandonou o nome J. Quest para evitar problemas com personagem de Hanna Barbera Johnny Quest - chega ao segundo álbum produzido por ninguém mais e ninguém menos do que Dudu Marote, justamente o controlador de mesa dos três discos anteriores que emplacaram a carreira do Skank.
Apegados à estética da black music dos anos 70, os rapazes não se acanham em querer soar ‘‘negões’’ nos vocais, o que roça o caricatural em músicas como ‘‘Tudo é Voc꒒ e ‘‘Nêga da Hora’’. Reiterando o pendor para o baladismo acústico que atualmente viceja entre as bandas pop (talvez como decorrência do sucesso do álbum unplugged dos Titãs), o quinteto de Belo Horizonte incursiona em duas faixas pelo formato: ‘‘Fácil’’, cuja melodia remete ao Legião Urbana, e ‘‘O Vento’’, com orquestração de Jacques Morelembaum e cacoete para figurar em canção de abertura de novela.
O conformismo, definitivamente, é regra no pop. Até a crítica, habitualmente mal-humorada, rendeu-se ao refrão.

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