Receita de cuscuz e humanismo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de outubro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Coroado por uma coleção de prêmios - Especial do Júri em Veneza 2007 e quatro troféus César, o Oscar francês -, ''O Segredo do Grão'' (veja a programação de cinema na página 2) é um filme francês com marcante sotaque árabe, uma minuciosa crônica de costumes de família de imigrantes da região do Magreb (norte da África) radicada no sul da França.
Ambientado no pequeno porto de Sète, o argumento mostra a jornada de Slimane (Habib Boufares), imigrante que é sumariamente demitido do estaleiro onde trabalha. Separado da mulher, mas em contato direto com os filhos, ele decide utilizar sua poupança para abrir um restaurante num velho barco ancorado no cais e sem uso. Ajudado por Rym (Hafsya Herzi, diversos prêmios como atriz estreante), a filha de sua atual companheira, Slimane percorre uma estafante via-sacra para materializar seu sonho - desde adaptar o barco até resolver o labirinto burocrático para legalizar o negócio.
O que entre outras coisas é admirável sobre o diretor tunisino-francês Abdellatif Kechiche é que imediatamente o espectador se torna uma espécie de membro honorário desta enorme, barulhenta, calorosa família norte-africana. Somos projetados no interior de diversas situações - em especial o ritual da refeição com a culinária típica preparada pela matriarca - a partir de uma descompromissada aproximação no melhor estilo cinema-verdade.
''O Segredo do Grão'', título brasileiro traduzido do inglês e de resto impróprio, não nos poupa de nada: quase sempre estamos diante de emoções sem qualquer glamourização e confrontados com um forte sentido de união familiar, fornecida sem que se saiba os antecedentes deste grupo étnico em permanente processo de integração. O que ficamos sabendo desta segunda geração de imigrantes, nascidos em solo francês e formando casais mistos, é aquilo que ouvimos da conversa abundante e do jeito que eles se comportam no dia-a-dia - como se fôssemos uma nova adição ao clã.
O tempo é fator precioso neste rico diálogo entre filme e espectador. Não torça o nariz ou implique com o alongamento da narrativa. Estou me referindo mesmo ao tempo de projeção, outro elemento do realismo, aqui usado criteriosamente como reflexão sobre o que acontece na tela. Há em especial dois momentos para observar e usufruir com atenção: a longa refeição povoada de rostos que se sobrepõem em closes e de muita conversa entrecortada por ruídos diversos, por outra conversa e mais outra, e a sequência final em torno da inauguração do restaurante de Slimane.
O que torna ''O Segredo do Grão'' uma peça cultural distanciada de outras histórias sobre a questão permanente e sempre complexa da imigração na França é o fato de que o filme veicula um discurso positivo. Em vez de focar os habituais clichês - racismo, intolerância, violência -, o que temos aqui são pessoas que amam seu país (a França) e querem deixar marcas sem renegar suas origens. Ao evitar que elas posem de vítimas do sistema francês, Abdel Kechiche despe seus personagens de qualquer estereótipo. Estereótipos claramente vistos como fonte dos problemas de integração. Sobre isto, o melhor exemplo é a cena final no barco-restaurante, onde comida, bebida, música e dança, lenta mas seguramente, ajudam a derrubar as barreiras raciais.


