Nelson Sato
De Londrina
Nunca blues, guitarras e os anos 70 combinaram tanto. Por uma feliz coincidência do mercado, dois CDs saltam dos baús para celebrar os velhos lamentos do Delta do Mississipi: Live In Japan de B.B.King e Blues de Eric Clapton, ambos lançados pela gravadora Universal.
O primeiro disco traz o guitarrista, que comemora seu 74º aniversário nesta quinta-feira, em pleno vigor disparando sua voz de tenor rouco e riffs incendiários em clássicos como ‘‘Every Day I Have The Blues’’, ‘‘How Blue Can You Get?’’ e ‘‘The Thrill Is Gone’’ (esta chegou a figurar no Top Five de rhythm and blues) e ‘‘Sweet Sixteen’’ (esta sim, foi ao topo da parada).
No disco, ele passeia pelas cordas de sua ‘‘Lucille’’ acompanhado por Ron Levy ao piano, Wilton Freeman no baixo, Joseph Burton no trombone, John Browning no trompete, Earl Turbington no sax alto, Louis Hubert no sax tenor e Sonny Freeman na bateria. Ao longo da performance, é notável a participação arrasadora de Freeman em ‘‘Every Day I Have The Blues’’, a faixa de abertura.
B.B.King, por sua vez, arranca faíscas em ‘‘Jamming At Sankei Hall’’ – o título é uma homenagem à casa de espetáculos de Tóquio onde foi registrada a gravação, em 1971. Na época, o artista já ponticava como inspirador de incontáveis guitarristas – entre eles, Eric Clapton.
Mas se o mestre foi saudado como o ‘‘Rei do Blues’’, o discípulo ultrapassou toda e qualquer reverência anterior sendo chamado de ‘‘Deus’’, quando ainda tocava ao lado de Jack Bruce e Ginger Baker no Cream. No CD duplo que chega agora ao Brasil, Clapton revisita seu passado glorioso reunindo 25 canções divididas entre gravações de estúdio (disco 1) e ao vivo (disco 2), a maioria delas capturadas na primeira fase de sua carreira solo.
O teor do repertório explica-se pelo título – Blues. Clapton incorpora os espíritos de Robert Johnson, Willie Dixon, Muddy Waters e outros da mesma estirpe rendendo homenagens ao gênero que sempre o perseguiu, ainda que na última década tenha apelado para o baladismo duvidoso.
Mas além de vasculhar as canções já gravadas em disco, Clapton resgata sobras de estúdio para completar o repertório. ‘‘Beffore You Accuse Me (Take a Look At Yourself)’’, registrada agora em duas versões (uma suingada e outra sincopada), foi recuperada de sessões do álbum Backless (1978).
‘‘Alberta’’ saiu dos arquivos de gravação de Slowhand (1977). ‘‘Meet Me (Down At the Botton)’’, por fim, é um resquício empoeirado de 461 Boulevard Ocean (1974). Entre uma faixa e outra, Clapton desponta ao lado de convidados ilustres sendo acompanhado aqui e ali pelos guitarristas Ron Wood (Rolling Stones) e Duane Allman (morto em 1971).
Já no disco ao vivo, o anfitrião lança mão de performances extraídas de Just One Night (1980) e da caixa Crossroads 2 (1996) completando o material com reinterpretações de Robert Johnson (‘‘Kind Hearted Woman’’ e ‘‘Crossroads’’), T-Bone Walker (‘‘Stormy Monday’’) e Otis Rush (‘‘Double Trouble’’).
Fechando o CD ao vivo, Clapton pinça uma versão de ‘‘Further On Up the Road’’, de Freddie King, registrada no Centro de Convenções de Dallas, em novembro de 1976. A faixa traz participação do autor, que morreria um mês depois na mesma cidade, imprimindo um caráter de réquiem à gravação. Clapton não poderia ser mais tocante nesse tributo ao blues.

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