Se a seleção Argentina jogar hoje com a mesma obstinação dos personagens centrais de ''Clube da Lua'', não haverá força em campo ou torcida alemã capaz de mudar o destinatário da vitória. O filme, que está a partir de hoje no circuito local (confira a programação de cinema na página 2), no entanto não é sobre a paixão futebolística dos vizinhos, de resto tão fanáticos pelo esporte como nós.
O clube a que se refere o título brasileiro é aquele social de bairro, velha e muito particular instituição portenha. Na maioria fundados lá pela metade do século passado por imigrantes espanhóis ou italianos, eles existiram em grande número em Buenos Aires como espaços ao redor dos quais girava a vida dos bairros habitados pela pequena burguesia. ''Clube da Lua'' narra a tentativa de algumas pessoas para impedir que um desses locais seja transformado em cassino.
O diretor Juan José Campanella declarou que ''O Mesmo Amor, a Mesma Chuva'', ''O Filho da Noiva'' e ''Clube da Lua'' formam uma trilogia sobre a classe média argentina. O primeiro estava centrado num personagem, o segundo numa família e finalmente o terceiro numa comunidade. Mas de qualquer maneira, o tema que unifica estes três títulos é bem mais convincente e menos ambicioso: a crise vital de um homem de meia-idade (o sempre magnífico Ricardo Darín) que enfrenta o reconhecimento da perda de ilusões da juventude e a incerteza quanto ao futuro.
Seduzido por esta proposta - também um filme metafórico sobre a resistência, o embate entre a tradição emblemática e o novo globalizado -, o público argentino transformou ''Luna de Avellaneda'' (o nome do clube/bairro) num dos grandes sucessos do cinema daquele país. Filme ao mesmo tempo descritivo e simbólico, ''Clube da Lua'' se beneficia em tempo integral da narrativa segura, do desenho até mesmo excessivamente detalhado dos personagens, do engenho na construção dos diálogos, de uma ternura quase sempre enamorada com o bom humor.
O bom do cinema de Campanella é que ele busca e encontra um tom popular, que fala de perto ao espectador argentino mas também não se nega ao olhar e ao sentimento de platéias universais. Produção cuidadíssima, cara, sabe como entreter sem cair na simplificação ou no esquematismo. Tem suficiente charme e muita habilidade para, a exemplo de ''O Filho da Noiva'', construir uma genuína comédia de costumes com situações dramáticas, sem no entanto torná-las triviais.
Atenção para o prólogo e o epílogo, após os créditos: eles resumem admiravelmente todo o humor colocado ao longo do filme. E o elenco, Darin à frente soberano, é de uma competência a toda prova. Fazem falta, na América Latina, filmes com esta alma, esta garra. A mesma que estará em campo hoje, nenhuma dúvida. E isto, bairrismos à parte, é preciso respeitar, na vida real ou na ficção.

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