Rec & Rogue, uma dupla arrepiante
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
Além do desprezível brinquedinho enfermo ''Jogos Mortais'', dois títulos na linha aterradora aparecem dividindo o espaço do Catuaí com 007, que em apenas uma semana já é um dos campeões de renda deste ano. Rec, embora lançado semana passada pelo inusitado processo de ''pré-estréia'' continuada, isto é, passou durante os últimos sete dias, mas a estréia nacional é hoje, é uma curiosa experiência de horror na linha ''A Bruxa de Blair'', mas com um tempero latino, aliás da Catalunha. E ''Morte Súbita'' pertence à serie ''animais serial killers'', no caso um vistoso crocodilo de águas australianas.
Dirigido em conjunto por Jaume Balagueró e Paco Plaza, Rec é um terror de produção modesta. Mas a economia de meios não impediu que o filme ganhasse os prêmios de melhor direção e melhor atriz (Manuela Velasco) no Festival de Sitges, o mais importante do segmento arrepios. Não é filme para antologia, mas dá bem conta do recado e atesta o bom momento que o gênero atravessa na Espanha (''Os Sem Nome'', ''O Orfanato'').
Ângela, ambiciosa repórter televisiva, vai com sua equipe a um quartel de bombeiros em Barcelona para registrar o dia a dia da profissão. Embora não fale abertamente, ela quer mesmo é que ocorra uma catástrofe para gravar um dinâmico e inesquecível ''ao vivo e em cores''. Depois do tédio de algumas horas, os bombeiros recebem a chamada de alguns vizinhos que ouviram gritos terríveis saídos da casa de uma velha que ficou presa. Tudo parece operação de rotina, até que uma mulher ataca um dos bombeiro com selvagens mordidas. Daí...
O argumento de Rec remete não somente à ''Bruxa de Blair'', mas também a ''Epidemia'' e outros tantos exemplares sobre contagiantes pragas de zumbis e congêneres. O que no entanto faz a diferença e o aproxima mais de ''Blair'' é que os cineastas filmaram em forma de falso documentário. Os espectadores acompanham muito de perto a trama através da câmera que segue a protagonista-repórter. Esta simplória mas sempre efetiva artimanha garante a sensação de que o público está testemunhando fatos reais, às vezes filmados em circunstâncias extremas porque os bombeiros não permitem gravar, o que leva a câmera a mostrar apenas parte daquele todo que está ocorrendo. Fica-se muito mais na sugestão, e é aí que o filme se socorre da imaginação da platéia. Como se disse, simples, mas engenhoso.
Para a obtenção desta linha de realismo cru ajudam, e muito, as interpretações, à frente a bela Velasco - longe da tela grande, ela é conhecida apresentadora da tevê espanhola. Há um certo desvio abusivo quanto ao histerismo dos personagens, mas o nível geral é adequado ao caos que se instala. Em certa medida, Balagueró e Plaza criticam o afã mórbido dos meios de comunicação. E a ambição a qualquer preço do repórter do momento. O filme visivelmente não se valeu de grande orçamento nem de sofisticados efeitos especiais, mas trabalha com inteligência os mecanismos do medo. E isto, para qualquer filme de terror que se coloque à prova, já é meio caminho andado.
Os desavisados podem pensar que ''Morte Súbita'' fala desta sempre presente síndrome fatal do esforço desmedido em organismos não preparados (os atletas de verão...). Não é bem isso. Aliás, não é nada disso. ''Rogue'', ou ''Morte Súbita'' como quis o título brasileiro, pertence ao subgênero de terror protagonizado por animais selvagens convertidos em assassinos (de humanos, claro) em série. Neste seguimento, os crocodilos sempre foram historicamente esquecidos. Este filme australiano é uma tentativa de conferir à espécie lugar de honra na galeria do terror aquático.
O argumento trata das desventuras de um grupo de turistas que, fascinados com a agreste paisagem do interior da Austrália, contrata um passeio de barco. Os crocodilos têm ali seu habitat natural, o que os transforma no centro da atenção dos até então divertidos exploradores. Mas um dos répteis não é como os demais. Incomodado com a presença que invade sua privacidade, decide afundar o barco e presentear-se com um banquete.
O diretor Greg McLean apostou desde o primeiro momento na criação de uma atmosfera opressiva e inquietante, ainda que a ação ocorra em exteriores. A narrativa transcorre bem até a meia hora final, e é lastimável que, em evidente concessão ao brilho fácil das bilheterias, o suspense até então bem dosado e conduzido se transforme naquela surrada e empobrecedora sucessão de sustos fáceis, previsibilidades várias e inverossimilhanças absurdas. (C.E.L.J.)t


