''Can't Buy Me Love: Os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos'' não é mais um entre os 500 títulos caça-níqueis já publicados sobre a banda de rock mais popular de todos os tempos. É um ensaio longo para gente que lê. Consumiu 20 anos de pesquisas. Seu autor, Jonathan Gould, leu tudo sobre a história do grupo e a origem de cada uma de suas 208 canções - além do contexto em que nasceram.
Claro, ''Can't Buy Me Love'' não é o primeiro nem será o último livro a tentar descobrir o que há por trás das letras de cada uma dessas canções dos Beatles. O livro de Jonathan Gould é uma mistura agradável de história cultural, biografia e análise crítica. Fica-se sabendo, por exemplo, que ''Revolution'', gravada logo após John Lennon e Yoko Ono aparecerem pela primeira juntos em público, em junho de 1968, foi mais que uma resposta do músico aos levantes estudantis de maio daquele ano. Foi o começo do fim. A performática Yoko resolveu se intrometer na gravação e ajudou o namorado a criar o caos musical (simulacro do social) que se ouve no disco conceitual dos Beatles, o histórico ''Álbum Branco''. Os demais integrantes do grupo não gostaram. O produtor George Martin ficou irritado. Depois disso, os Beatles só durariam mais dois anos.
Gould é particularmente habilidoso para saber que o monomito do grupo, a jornada dos Beatles, havia começado individualmente, e não coletivamente, quando eles embarcaram para Hamburgo e se autoinventaram como músicos, artistas e indivíduos. Foi num inferninho chamado Indra Club, antigo bar de strip tease, que eles cantaram (em alemão) ''Komm gib mir deine Hand'' (''I Want to Hold Your Hand''). Tocavam seis horas por noite para bêbados e depois iam dormir atrás da tela de um cinema imundo. A evolução do senso de identidade do grupo se deu ali, nessa rebeldia contra o ethos burguês, na busca de afirmação marginal e individual dos heróis.
''Can't Buy Me Love'' mostra como a postura desses lederjakken, metidos em suas jaquetas de couro, forjou a rebeldia - ainda que domada pela indústria - de jovens da classe trabalhadora, a ponto de algumas de suas mais populares canções retratarem o mundo de subproletários ingleses proibidos de ver ''O Selvagem'' de Marlon Brando por decisão do governo britânico.
O que começou como uma paródia de dandismo da classe dominante por subproletários urbanos virou uma caricatura grosseira. Os Beatles tinham de reinventar essa história. E reinventaram, ainda que por meio de suas canções.

Serviço
- Can't Buy Me Love: Os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos
Autor - Jonathan Gould
Tradução - Candonbá
Editora - Larousse
Quanto - R$ 99 (752 pág.)
Excepcionalmente, não publicamos a coluna da jornalista Celia Musili nesta edição

mockup