REBELDIA EM CAUSA PRÓPRIA
Leandro Calixto
TV Press
Confortavelmente instalado numa ampla cobertura na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Chico Anysio passa parte do seu tempo pintando quadros e curtindo o sucesso de seus personagens Alberto Roberto e Professor Raimundo, do programa Zorra Total. Eles são responsáveis pelos maiores picos de audiência do programa, gaba-se. Aos 68 anos, Chico se considera no auge da carreira. E mantém a mesma ironia de sempre e o hábito de atirar para todos os lados.
Com 31 anos só de Globo, o comediante acha que não tem mais nada a provar. Fiz mais de 200 personagens. Se a Globo for inteligente, ela me explora mais. Sabe que dou retorno comercial e também de audiência, avisa. O recado é para a superintendente-executiva da Globo, Marluce Dias. Há dois meses, Chico vem negociando para ter um programa próprio na emissora.
A produção, que teria novos personagens, chegou até a ser aprovada pela emissora. Mas a Globo exigiu que Chico participasse de todos os quadros do programa. A intenção do comediante era revezar em cena com novos humoristas.
A insatisfação de Chico também é com os colegas da própria emissora. Jô Soares e Renato Aragão se tornaram persona non grata para Chico. O primeiro porque o teria destratado quando Chico lhe telefonou da Argentina. A seguir, os melhores trechos da entrevista com o comediante.
O que realmente faz com que seu programa próprio não tenha vingado na emissora até agora?
Esta é uma longa história... Primeiro eu fiz o programa. A proposta inicial era ter três blocos, onde eu faria dois personagens por bloco. O programa contaria com a participação de seis novos atores, que chamei de companhias de humor de Brasília e Bahia. Só que a casa não queria o programa assim. A intenção é que eu fizesse tudo. Eles alegaram que quando eu saía de cena, a qualidade do programa caía. Isto não existe. É claro que eles são diferentes de mim...
Mas depois disso houve uma nova rodada de negociação. O que ficou decidido?
Eles ofereceram 40% de reajuste do meu salário atual. Mas eu falei que 40% não dava. Pedi 70% a mais. Foi a primeira vez que fiz uma reivindicação salarial em 31 anos de Globo. Aí, passaram a me chamar de mercenário. Não sou mercenário. Ajudei a construir a Globo, quando ainda ela era a quarta emissora do País. Mas vamos supor que eles me dêem os 70%. Acho que também não vai mudar muita coisa em minha vida. Vai dar para comprar uma fazendinha em Nova Friburgo. Mas não quero, pois já tenho uma casa em Petrópolis. Posso também comprar com este reajuste um novo e bom apartamento no Leblon. Não quero, pois acabei de comprar uma cobertura na Barra da Tijuca. Também daria para comprar um Mercedes conversível e um iate. Também não quero. Vão jogar lixo no carro e de iate não preciso. Tenho medo do mar.
Pelo prestígio que você goza na emissora, não seria mais fácil negociar diretamente com a Marluce?
Converso diretamente com o departamento artístico da emissora, que depois leva a proposta do programa para ela. Na época em que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, era o vice-presidente da Globo, as coisas eram diferentes. Ele me dava carta branca para fazer o que eu bem entendesse.
Enquanto a Globo não define seu novo programa, você vem fazendo sucesso no Zorra Total com os personagens Alberto Roberto e Professor Raimundo. Isto seria sua resposta?
Não sou uma pessoa vingativa. Tudo que faço é com prazer. Quando resolvi reviver o Alberto Roberto, que foi criado há mais de 40 anos, já imaginava que fosse cair no gosto do público. Trata-se de um talk show, em uma maneira irreverente de entrevistar as pessoas. Faço tudo de improviso. Faço também os convidados brilharem.
Entre os novos contratados da Globo está o Jô Soares, com quem você acabou se desentendendo. O que realmente aconteceu entre vocês dois?
O Jô me tratou muito mal. Eu estava em Buenos Aires quando liguei para ele para saber o nome de um maquiador argentino que havia participado do programa dele. Queria o telefone do cara, mas ele disse que não sabia o número. Pedi então para ele, pelo menos, tentar arrumar o número com a produção do seu próprio programa. Surpreendentemente ele me disse: Chico, você não está na Argentina? Então, procure você mesmo. Diante desta resposta, eu disse: Tá bom Jô. Desculpe pelo incômodo e uma boa tarde. Desliguei o telefone e botei capuz na cabeça dele. Quando não quero saber mais de uma pessoa, coloco capuz no cara. Mas ultimamente o Jô acha que é o dono do mundo. Não dou mais nenhuma importância para ele. Só desprezo. Ele não existe para mim.
Então você não o convidaria para participar do quadro Rosto a Rosto, com Alberto Roberto...
Nem f...
Em relação a outro desafeto seu, o Tom Cavalcante, você chegou a assistir ao programa dele?
Não vejo para não precisar criticar. Não tenho a menor curiosidade de vê-lo.
E com Renato Aragão, existe a possibilidade de uma reconciliação?
O Renato é um cara esquisito e a gente quase não se fala.
Frequentemente surgem especulações na imprensa que você estaria saindo da Globo. Depois de três décadas na mesma emissora, você não pensa em mudar?
Cheguei a receber do diretor Eduardo Lafon, quando ainda ele era da Record, uma proposta concreta para sair da Globo. Depois, a produtora do Gugu Liberato me procurou também. Queriam que eu fizesse um programa na Rede TV!. Mas vai ser difícil eu deixar a Globo. Tenho mais quatro anos de contrato e a multa rescisória é muito alta. Quem sabe depois deste contrato não me aposento?Apesar do sucesso em Zorra Total, Chico Anysio reclama um programa só seu e não economiza farpas aos seus desafetos, entre eles Jô Soares
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasChico Anysio: Na época do Boni, eu recebia carta branca para fazer o que eu bem entendesse na Globo





