Rebeldia bem musicada
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segunda-feira, 19 de outubro de 1998
Elisa Marilia Carneiro 
A primeira grande produção da Broadway a estrear no Brasil, o Musical Grease chega a Curitiba provocando grande expectativa. Tanto o público, que esgotou em pouco tempo os ingressos para os dois primeiros dias, quanto os produtores, que tiveram de adiar duas vezes a estréia, poderão, finalmente, assistir hoje ao espetáculo, que veio carregado de promessas.
Ensaiando há mais de um mês em salas de espetáculos, a companhia chegou aos poucos e foi tomando conta da cidade, com outdoors, chamadas nas televisões e rádios, divulgação do espetáculo em shoppings, escolas, universidades e com os atores e bailarinos participando da vida da cidade nos arredores do Teatro Guaíra.
Até hoje, mais de 11 milhões de pessoas em todo o mundo já assistiram ao Grease, um megasucesso desde 1972, e uma das produções há mais tempo em cartaz na Broadway. A chegada do Grease ao Brasil coincide com a comemoração dos 20 anos do filme com o mesmo título, estrelado por John Travolta e Olivia Newton-John. A montagem inédita terá legendas em português durante as apresentações em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
Toda a pré-produção de Grease foi realizada em Nova York. No elenco estão 25 atores e 15 músicos, com várias passagens por musicais da Broadway. Técnicos, diretores e produtores também têm em seu currículo vários trabalhos de sucesso. Ao todo, cerca de 150 profissionais estão em Curitiba preparando o som, a iluminação e o grande cenário de dois andares montado com alta tecnologia.
O musical Grease apresenta no Brasil um grande cenário móvel, em três dimensões. Idealizado pelo americano Michael Downs, um dos mais requisitados designers dos Estados Unidos, o cenário tem dois andares e foi montado com estrutura de aço. Todas as partes se encaixam e se transformam em outros ambientes.
As cores mudam a cada cena, as paredes correm por trilhos, escadas interiores permitem que os artistas se movimentem com segurança e, de uma garagem sairá com grande suspense um belo Chevrolet Impala conversível ano 1957.
Com mais de 450 toneladas de luzes e sistema de som com capacidde para 9,6 mil watts, o musical promete ser o maior já apresentado no Brasil. Ainda não veio para cá uma produção com essa grandiosidade e tecnologia, garante o produtor Peter Massine.
As caixas de som ficam espalhadas por todo o teatro. O que nos interessa é uma perfeita distribuição do som, não apenas volume, explica Massine. Cada ator usa um sofisticado microfone sem fio, controlado individualmente pelo sound designer Chris Jordan.
O equipamento de luz, a cargo do light designer David Neville, usa recursos de intelligent and moving lights - acompanha os atores no palco e troca de cor programado por computador. É possível fazer mais de 800 combinações diferentes de luzes. A potência é tanta que se todas fossem ligadas ao mesmo tempo, metade de Curitiba ficaria no escuro, brinca Massine. Ele diz ainda que todo este conjunto de efeitos têm de funcionar em perfeita sincronia com os atores e músicos.
A música será ao vivo, como em todo verdadeiro musical da Broadway. Quinze músicos estarão acompanhando o coro, com a direção do maestro Robert Lamont. Ele preparou novos arranjos para as músicas, e a platéia terá oportunidade de escutar algo nunca ouvido antes em qualquer produção deste musical.
O diretor está se baseando em orquestrações usadas nas montagens de Londres do orquestrador Larry Wilcox. Mas eu também estou criando arranjos especiais, me inspirando em minha própria experiência anterior com o rock-n-roll, assim como nas músicas do filme Grease. A platéia vai se deliciar com o bom e velho rock-n-roll, garante Lamont. Robert tem também a colaboração do maestro John Randall, que irá reger a orquestra após a estréia.
As músicas do filme que serão tocadas são Grease is the World, Sandy, e a balada country Hopelessy Devoted to You, além, é claro, do sucesso pop You are the one that I want. O público também irá conhecer músicas da montagem original, que incluem os eternos Summer Nights e Greased Lightning.
A história de Grease passa-se no ano de 1959, em uma fictícia escola tradicional de segundo grau americana. Experimentando os primeiros ventos do liberalismo, os jovens daquela época tinham em mente introduzir novos comportamentos.
Elegeram o rock-n-roll, as jaquetas de couro e as saias rodadas, o cabelo com brilhantina e o famoso topete, e carro conversível como símbolos das transformações que estavam impondo. É com todos esses aparatos e conceitos, que mudaram a maneira de pensar da juventude, que o musical será apresentado no Brasil.
Os conflitos da peça envolvendo os personagens são uma demonstração do quanto havia na época reações de transgressividade em uma sociedade ainda predominantemente conservadora e tradicional. Os encontros promovidos pelos jovens nos anos 50 e 60 eram recheados de idéias liberais e demonstrações de inconformismo.
O disco Rock around the clock, lançado em 1954 por Bill Haley e os Comets é considerado uma das referências daquele período. As músicas inspiradas por Haley viraram trilha sonora de alguns filmes polêmicos, nos quais o tema delinquência juvenil e atitudes anti-sociais eram abordados, fazendo com que o recém-criado ritmo rock-n-roll fosse associado à rebeldia.
O consumismo juvenil teve também seu grande impulso na década em que Grease é ambientada, principalmente por causa da televisão. Tanto que Marilyn Monroe, Lollobrigida e Sophia Loren, estrelas do cinema, se transformaram em garotas-propaganda, influenciando o modo de se vestir das mulheres, principalmente das adolescentes. A maquiagem se tornava um produto do público feminino jovem.
Com todos esses fatores, o Musical Grease apresenta no palco os anos 50, quando o mais importante era, acima de tudo, aproveitar ao máximo os momentos da vida, com muito rock-n-roll na vitrola e paixões inesquecíveis.
No enredo de Grease, Sandy e Danny são dois jovens que, depois de viverem um romance de verão, se reencontram na mesma escola e passam a viver os problemas e desencontros do amor. Em meio a festas, confusões, e muita dança, eles terão que provar a si mesmos que o sentimento é mais forte que suas diferenças pessoais. Sandy terá de descobrir se ela quer ser uma boa menina para sempre ou se ela tem algo a mais dentro de si para mostrar.


