Rebeldes com causa
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de abril de 2002
Nelson Sato Reportagem local 
A última vez que eles se manifestaram em peso foi há um mês em Barcelona, na Espanha. Todos já se acostumaram a vê-los enfrentando cassetetes, jatos dágua e bombas de gás lacrimogênio. Qualquer reunião de chefes de Estado ou de organismos financeiros internacionais como FMI e Bird, é motivo para levá-los às ruas em protestos gigantescos contra a globalização.
Confundido muitas vezes com anti-americanismo, o movimento aglutina um espectro díspare de correntes de oposição incluindo anarquistas, trotskistas, verdes, vermelhos, sindicalistas, estudantes, punks, imigrantes e uma inchada horda de organizações não-governamentais. Seus ativistas já foram rotulados de geração Seattle, em referência à cidade-sede que inaugurou o novo ciclo de sublevação contra o neoliberalismo.
Seattle, na verdade, pautou a mídia. Depois vieram Praga, Washington D.C, Londres, Quebéc, São Paulo, Paris e Gênova. Ao contrário do que alguns analistas preveram, o fatídico 11 de setembro não minimizou a escala das passeatas. A crença de que a modernidade global acentuou a miséria no planeta, ao concentrar a renda nos países ricos, continua insuflando dissidências.
É o que mostram três livros lançados nesta temporada no Brasil: Urgência das Ruas (editora Conrad), Resistências Mundiais de Seattle a Porto Alegre (editora Vozes) e O Outro Davos Mundialização de Resistência e Lutas (editora Cortez). O primeiro título reúne os manifestos, comunicados, artigos e entrevistas de participantes dos motins.
Alguns textos são assinados, outros anônimos, a maioria veiculados pela Internet. O volume foi organizado cronologicamente a partir de 1998 e faz parte da coleção Baderna, dedicada à publicação de escritos representativos da rebeldia contemporânea. A coletânea dá primazia aos textos libertários dos grupos Reclaim The Streets e Black Blocks, considerados os mais radicais do movimento contra o Capital.
Os Black Blocks, os mais visados pela mídia conservadora, chamam atenção por vestirem roupas pretas e máscaras. Durante as manifestações, costumam depredar vitrines do McDonalds e tudo que simbolize o consumismo. Se levarmos em conta que as ações dos Black Blocks nessas manifestações-bloqueio feriram sem gravidade no máximo apenas alguns poucos policiais, enquanto milhares de manifestantes saíram feridos pelas investidas policiais, tachá-los de violentos deveria ser algo risível, que só demonstra o quanto aqueles que assim os rotulam ainda se encontram imersos e devedores da moral e da ordem burguesa escreve Ted Ludd, o organizador da antologia.
Também fundamental para a compreensão dos protestos anti-globalização é o livro O Outro Davos, que descreve o encontro ocorrido há três anos na cidade suiça de Davos reunindo mais de 50 movimentos sociais e intelectuais militantes do mundo inteiro na tentativa de aglutinar as novas contestações. Na época, a troca de idéias e experiências não obteve repercussão, só conquistando visibilidade depois com a explosão dos confrontos de rua.
O volume reproduz as conferências, debates, artigos e relatórios surgidos na ocasião. O célebre historiador marxista Perry Anderson contribui com os textos História e Lições do Neoliberalismo e Além do Neoliberalismo. O militante do Movimento dos Sem-Terra Mário Luís Lill, que recentemente levou o apoio do MST a Yasser Arafat no Oriente Médio, também é citado no livro como participante dos debates. A coletânea foi organizada pelos sociólogos François Houtart e François Polet.
Com a mesma orientação, o volume Resistências Mundiais de Seattle a Porto Alegre reúne um conjunto de trabalhos que apresentam e analisam as tendências mais recentes do capitalismo globalizado, bem como a evolução do movimento que a ele se opõe. De um lado, são perfilados temas como a estrutura do poder mundial, o papel dos organismos financeiros internacionais, as novas atribuições dos Estados Nacionais e a relação capital-trabalho.
De outro, são abordados tópicos como os protestos de Seattle, a experiência do Zapatismo, a marcha mundial das mulheres, os sucessos de Praga e o Primeiro Fórum Social Mundial de Porto Alegre. O livro integra a coleção A Outra Margem, da editora Vozes.
Serviço: Urgência das Ruas. Editora Conrad. Tel. (11) 3865-4949
O Outro Davos. Editora Cortez. Tel. (11) 864-0111
Resistências Mundiais de Seattle a Porto Alegre. Editora Vozes. Tel. (24) 223-39000.


