'REALIDADE' RESUMIDA
Jorge Eduardo
De Curitiba
Era abril de 1966 e a cara risonha de Pelé, emoldurada por um bubsy aquele gorrão de pele de urso usado pela guarda da rainha da Inglaterra , na capa da revista, revelava nosso insuportável ufanismo. Era a antecipação da conquista do tricampeonato mundial de futebol em Wembley pelo nosso dream team de então. Provavelmente pela primeira vez, uma reportagem de ficção era publicada na imprensa brasileira. Foi, também, a primeira barriga (engano que beira o ridículo) de nossa imprensa no jornalismo de ficção. Como se sabe, o Brasil apanhou da Hungria e de Portugal e voltou para casa mais cedo. Pouco importava: o texto era notável.
O que ficou na memória de quem já passou dos 40 foi aquela revista nascida em abril, 33 anos atrás. A Realidade, editada pela Abril, foi a melhor e mais completa revista de reportagem já publicada no País. Pelé surgiu na capa do primeiro número e seria capa de novo, em janeiro de 1971, numa reportagem sobre sua capacidade de fazer dinheiro com sua marca pessoal.
Realidade durou até março de 1976, já meio mal das pernas, com a censura fungando no cangote, as vendas despencando e sua resolução editorial cada vez mais complicada. Havia perdido a corrida para as ditas revistas semanais de informação, que traziam um resumo da semana, um ou outro furo de reportagem e muitas matérias chupadas de publicações estrangeiras, como The Economist, Science, Time e outras. Realidade deixou uma história de reportagens inesquecíveis, produzida pelo melhor time de jornalistas brasileiros já agrupados numa mesma redação. Havia ainda uma equipe flutuante de colaboradores de primeiríssima linha.
Por alguma razão, que mais parece o desejável ensaio de um retorno, a Editora Abril leva às bancas, em forma de edição histórica, uma síntese de algumas de suas principais reportagens. Por módicos R$ 5,50, o leitor pode ler um resumo de 39 grandes reportagens publicadas. De quebra, uma imensa em todos os sentidos crônica do mestre Nelson Rodrigues sobre o futebol brasileiro, uma tradução de Obladi-Obladá, dos Beatles, por ninguém menos que mestre Carlos Drummond de Andrade, e mais Paulo Francis, Plínio Marcos, Adoniran Barbosa e Carlos Lacerda. De quebra, uma reportagem, no melhor estilo new journalism, do grande Norman Mailer, contando a histórica derrota de Muhammad Ali para Joe Frazier, em 1971, na primeira de uma série de lutas do século. A foto foi batida pelo foca Frank Sinatra aquele.
Das reportagens resumidas nessa edição, a de outubro de 1971 marcou um tento histórico na imprensa da América Latina. Sob a coordenação de Raimundo Rodrigues Pereira, hoje conferencista e eventual colaborador de Veja, a revista Realidade gastou meses de trabalho e dedicou toda a edição à Amazônia. Em maio do ano seguinte, Realidade faria uma edição inteira sobre a questão das cidades metropolitanas de então (Curitiba era ainda uma província, longe do primeiro milhão de almas, e nem foi citada). Trata-se de um documento histórico, de consulta obrigatória por todo prefeito que se preze. Para deleite dos saudosistas, como o colunista desta Folha Ney Alves de Souza, a revista republica três anúncios da Volkswagen, de 1971 e 1972.
Para ilustrar um resumo de reportagem sobre o movimento estudantil, a revista traz à luz, passados mais de 30 anos, a histórica foto de Édison Jansen, de O Estado do Paraná, em que ele flagrou o hoje militante do PC do B de Curitiba, Dr. Zequinha, enfrentando com estilingue um soldado a cavalo. Jansen, como Mário Nunes, do Diário do Paraná, foi Esso de Fotografia.
Em seus quase 10 anos de existência, Realidade antecipou-se às tendências e trouxe em suas capas do já citado Pelé ao garotão Chico Buarque. De Leila Diniz a Che Guevara. De Hitler a Jesus Cristo. De Tostão a Luiz Carlos Prestes. A revista fez um perfil detalhado do cardeal D. Paulo Evaristo Arns, quando ele tinha apenas 49 anos e já era malvisto pelo Vaticano. Discutiu o aborto, o futebol, o movimento feminista, as esquerdas e as direitas.
Jornalismo de primeira linha, no Brasil, tem, necessariamente, de colecionar prêmios Esso elegante concurso organizado pela multinacional para premiar a imprensa brasileira. Realidade foi imbatível em sua época. A edição sobre a Amazônia bateu todos os recordes: Prêmio Esso de Jornalismo, de Equipe e Melhor Contribuição à Imprensa em 1972. Realidade ganhou ainda vários prêmios por reportagens e quatro Esso de Informação Científica, em 1967, 1968, 1969 e 1973.
Na notável equipe de Realidade, o destaque era o repórter José Hamilton Ribeiro, hoje no Globo Rural, responsável por vários prêmios da revista e por uma tocante reportagem colhida no Vietnã, em maio de 1968, e escrita nos Estados Unidos, onde se recuperava da amputação de uma perna, destruída por uma mina terrestre. Havia, é claro, outras feras, como o hilário fotógrafo David Drew Zingg, o repórter Narciso Kalili depois chefão no extinto Panorama, de Londrina, outro marco na história da imprensa tupiniquim , o hoje psicanalista Roberto Freire da equipe de Caros Amigos e tantos outros.
Muito tempo atrás a Abril já havia lançado uma edição de Realidade, com Pelé na capa e algumas de suas principais reportagens na íntegra. Agora vem esse resumo, 33 anos depois, mas sem grandes explicações, Realidade se insinua nas bancas, em meio àquele mar de revistas de informação, publicações segmentadas, revistas de fofoca, de cultura, a Caras e a Bundas do Ziraldo. Num momento em que a TV, os jornais e até algumas rádios voltam a investir na velha e boa reportagem, não custa imaginar que Realidade possa estar voltando. Será bem-vinda, pois sempre haverá mercado para a inteligência.Revista que fez história na imprensa brasileira volta às bancas com amostras das reportagens
Édison Jansen/ReproduçãoJulho de 1968: o fotógrafo Édison Jansen, de O Estado do Paraná, flagra o hoje militante PC do B, Dr. Zequinha, enfrentando um soldado com estilingueDavid Drew Zingg/ReproduçãoFoto de David Drew Zingg mostra o trabalho de um magarefe ou matador de bois em Feira de Santana (BA), em março de 1967





