Realidade dentro das salas de aula está longe de ser igualitária
Autora exemplifica, por meio de vivências, pesquisas e relatos - de que forma o racismo já se manifesta na primeira infância
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Autora exemplifica, por meio de vivências, pesquisas e relatos - de que forma o racismo já se manifesta na primeira infância
Walkiria Vieira 

De acordo com o Censo Escolar 2024, realizado pelo Ministério da Educação, pela primeira vez na história o número de crianças negras nas creches brasileiras superou o das brancas, com uma porcentagem de 40,2% para 38,3%.
Em uma análise preliminar, o recente dado revelado poderia indicar avanços na inclusão e acolhimento de crianças negras desde a primeira infância. No entanto, a realidade dentro das salas de aula ainda está longe de ser igualitária.
Nas 144 páginas da obra "Democratização do colo: Educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas", Jussara Santos, Papirus Editora, 2024, exemplifica - por meio de vivências, pesquisas e relatos - de que forma o racismo já se manifesta na primeira infância e como educadores e pais podem identificar as atitudes preconceituosas na rotina para lidar com a questão.
Dedicada às mulheres negras mães e às que educam bebês e crianças das redes municipais e privadas de educação infantil, o conteúdo reverencia sobretudo educadores que democratizam colos, olhares, afetos e toques. A autora confidencia que dor e esperança se misturaram durante a escrita do livro.

ROMPER COM A COLONIZAÇÃO
De maneira didática e objetiva, a autora expõe como democratizar. "É uma urgência e é preciso pensar formas audaciosas de reorganizar o seu trabalho com os bebês e as crianças. Talvez rever o que você considera belo, por exemplo, seja uma necessidade", alerta.
De seu entendimento, as instituições que atendem as crianças serão promotoras de encontros de diversos sonhos, histórias, vozes, cheiros, desejos e devem comprometer-se com práticas antirracistas, como projeto basilar. "Para toda e qualquer vivência cotidiana, é o desafio que se impõe ao pensar educação das relações raciais".
E ratifica a necessidade de respeitar a Lei n. 10.639/2003, que determina a necessidade de apresentar a história e a cultura africana e afro-brasileira.
Do ponto de vista da autora, bebês e crianças negros, brancos, migrantes, com deficiência precisam de seu olhar, sua atenção, seus cuidados, tendo como base a condição de cada um deles.
Para tanto, educadores devem se atentar às individualidades e considera as diversas formas de ser, e compor o grupo que elas e eles lhe apresentarão. "Estudar, pesquisar, ouvir músicas, ampliar repertório artístico, esses podem ser caminhos importantes para a construção de um projeto antirracista que aconteça de janeiro a janeiro em sua turma".
Assim, a responsabilidade é de todos sobre o engajamento com o rompimento da colonização: gestoras, diretoras, orientadoras educacionais, coordenadoras pedagógicas devem ampliar suas experiências antirracistas e trazer essas vivências em suas escolhas para os espaços de cuidado.
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Nessa perspectiva, tornar a sala de aula um espaço acolhedor e antirracista é possível, bem como existe o desafio de valorizar educação antirracista na primeira infância - para o bem de toda a sociedade.
Fruto de duas décadas da atuação de Jussara Santos na educação básica, o compilado evidencia que a implementação de uma educação antirracista requer compromisso institucional e pedagógico que vá além de políticas superficiais.
De modo esclarecedor, o conteúdo descortina a realidade escolar no trato com crianças negras na prática. E traz exemplos: na sala da educação infantil, bebês começam a chorar. Para acalmá-los, a professora senta-se, coloca um deles no colo, abraça, acaricia e profere palavras de carinho. O outro é deixado no chão, encostado na perna da figura mais próxima à materna no ambiente, permanecendo ali até que o choro cessa. "Qual dessas crianças é negra", questiona.
Essa distinção entre brancos e negros, habitual no ambiente escolar, levou a educadora, pesquisadora e doutora em Educação e relações étnico-raciais a reunir vivências, pesquisas e relatos na publicação.
Com o intuito de convidar a sociedade a refletir sobre infância e racismo com coragem, compromisso e honestidade, a autora apresenta subsídios para que o preconceito na rotina infantil não passe despercebido.
INCLUSÃO REAL
Além de abrir a possibilidade desde a identificação ao manejo das situações de discriminação, a autora analisa a seletividade de quais corpos ganharão ou não o colo desejado em diferentes momentos.
Aborda, ainda, os conceitos de raça, racismo, branquitude e como esses se apresentam nas relações entre bebês, crianças e adultos envolvidos nos processos de educação e cuidados.
A falta de brinquedos, livros e narrativas literárias que valorizassem a presença de bebês/crianças negros, indígenas, bolivianos e de outras nacionalidades, presentes nas instituições por onde passei, além de mediações tantas vezes excludentes e racistas, contribuía para um silenciamento por parte dessas crianças, o que comumente era intitulado timidez.
Não raras foram as vezes que as professoras titulares das turmas diziam: “Nem fique perto desse bebê, ele não gosta de colo, de proximidade”. (Democratização do colo: Educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas, p. 24)
A ideia é promover uma transformação estrutural e cultural nas instituições educativas. Para isso, é essencial potencializar o sentimento de pertença e segurança nas relações estabelecidas entre adultos, bebês e crianças pequenas.
O livro propõe também a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e equitativa. Isso implica que a educação antirracista se constitua elemento basilar para as práticas pedagógicas nas instituições de educação infantil.
O manuscrito é considerado pela autora uma obra polifônica e um manifesto para que bebês e crianças negros, indígenas e todos aqueles que são racializados existam no planejamento, na organização dos espaços, nos brinquedos, nas fantasias, nas obras literárias e, sobretudo, nos braços que acolhem, protegem e acariciam.
SOBRE A AUTORA
Educadora das infâncias há 20 anos, Jussara Santos atua com bebês e crianças entre 0 e 6 anos. Compõe a dupla autoria do documento Currículo da cidade: Educação antirracista (São Paulo, 2022).
Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutora em Educação e relações étnico-raciais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisa infâncias, antirracismo e educação infantil.
Premiada como Mulheres Negras na Ciência (2019) e Paulo Freire (2019), na cidade de São Paulo, integra comissões de heteroidentificação em concursos públicos no Brasil.
Santos atua no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), nas áreas de educação, trabalho e presta assessoria para instituições públicas e privadas no país.

SERVIÇO
"Democratização do colo: Educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas"
Jussara Santos
144 páginas
Papirus Editora, 2024


