Readers Digest lança pacote de bossa nova
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quarta-feira, 25 de novembro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Enquanto varria o palco do teatro, o compositor e violonista Roberto Menescal ouvia o burburinho do lado de fora. A bossa nova não via nem sombra de sucesso, e os músicos eram obrigados a cuidar de cada detalhe das apresentações. De repente, alguém comentou:
- Está o maior engarrafamento lá fora.
Menescal reclamou:
- Bem no dia do show?
- Mas o engarrafamento é justamente por causa da apresentação.
A surpresa foi geral. O show O Amor, o Sorriso e a Flor se tornou um dos marcos do início da bossa nova, sem que seus intérpretes soubessem que caminhavam para um estilo musical que transformaria a música brasileira.
Hoje, 40 anos após o estouro do ritmo, Roberto Menescal comemora a data preparando o lançamento de um CD com músicas inéditas, além de auxiliar a equipe do Readers Digest Música, que lançou no início do mês a coletânea Bossa Nova - O Amor, o Sorriso e a Flor, uma caixa com quatro CDs que reúne as principais músicas do movimento.
Não é qualquer coisa que chega aos 40 anos. A bossa nova já mostrou a cara, não foi uma coisa passageira. O estilo tem influenciado toda essa geração que veio depois da gente, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo e Marcos Valle, comentou Roberto Menescal, em entrevista por telefone à Folha2.
A bossa nova completa 40 anos com novo fôlego no exterior. Além de Marcos Valle e Joyce, que fazem sucesso nas pistas inglesas, o ritmo tem público garantido no Japão, com versões originais ou remixadas, sampleadas com batidas eletrônicas para ganhar ares de dance music.
O pacote lançado pela Readers Digest traz clássicos como Desafinado, interpretado por Gal Costa, Samba de uma Nota Só, com Nara Leão, Águas de Março, com Elis Regina e Tom Jobim, Berimbau, com Baden Powell, Samba do Avião, com Os Cariocas, O Barquinho, com o Tamba Trio, e muitos outros.
Eu fui um consultor, indicava os caminhos, enquanto a equipe negociou os fonogramas com as gravadoras. O trabalho é todo deles e deixo claro que não estou ganhando nada com isso, argumenta Menescal, com bom humor.
A coletânea dá um panorama do início da bossa nova até intérpretes atuais, como Leila Pinheiro, Bia e Cláudia Telles. O lançamento tenta contemplar boa parte dos nomes que participaram do movimento, como o próprio Menescal, Oscar Castro Neves, Baden Powell, Tom Jobim, Sérgio Mendes, até predecessores como Dick Farney, Lúcio Alves e Claudette Soares.
Carlos Lyra, que não participa diretamente da coletânea, é representado por Minha Namorada, composta ao lado de Vinícius de Moraes e interpretada por Bia, Sabe Você, com Nara Leão, além de Lobo Bobo, Saudade Fez um Samba e Se é Tarde Me Perdoa, com Leila Pinheiro. Johnny Alf também aparece como compositor de Ilusão à Toa, na voz de Sylvia Telles.
O maior homenageado é Tom Jobim, com várias composições. A grande ausência é João Gilberto. Garota de Ipanema, uma das principais músicas da bossa nova, aparece na voz pop de Marina - além de uma versão instrumental de Sérgio Mendes & Bossa Rio. Também é difícil entender a presença de Frejat ao lado do Quarteto em Cy em outro marco, Chega de Saudade.
Embora tente atrair a atenção de novos ouvintes, o lançamento também tem grandes momentos, como o próprio Tom Jobim em Insensatez e Roberto Menescal e seu conjunto em Surf Board.
Essas coletâneas são importantes para mostrar o que foi a bossa nova, tenho certeza que ela vai virar o século, acentua Menescal. O músico revela que hoje trabalha mais pelo movimento do que na época: A gente tem essa obrigação eterna, nunca trabalhei tanto como agora. Preparando o lançamento no Brasil de seu novo trabalho, Estrada Tóquio-Rio, que chega ao País em meados de dezembro com uma série de shows no Bar do Tom, no Rio de Janeiro, Roberto Menescal admite que continua recebendo influências.
O disco tá chegando, foi um álbum encomendado pelo Japão que foi lançado lá em agosto. Resume desde os primórdios da bossa nova até a produção atual, salienta. O compositor revela que suas novas músicas trazem reflexos do blues: As composições recentes têm uma cara original, com um pouco de blues, que está muito presente na minha vida. Hoje absorvo essas influências com maior tranquilidade.
Aos críticos que apontam a bossa nova como um estilo elitista que diluiu o samba, Menescal responde que não há nada exatamente original: Tudo o que você faz é continuidade de alguma coisa. Tivemos influência total do jazz, e a bossa nova veio dessa mistura, nunca neguei. É também um grande orgulho porque teve a contrapartida, nós também influenciamos o jazz. É uma troca. A maior morte é a estagnação, a coisa estática, parada.
Roberto Menescal começou a tirar acordes do violão ao ouvir melodias de Johnny Alf, Lúcio Alves e Dick Farney. Não tínhamos noção de que uma garotada faria tanta coisa. Mesmo nos primeiros shows, anda não percebíamos o que estávamos fazendo, assegura. Após 40 anos, a bossa nova ainda permanece como uma das referências da música brasileira.
O pacote Bossa Nova - O Amor, o Sorriso e a Flor pode ser adquirido pela Central de Atendimento do Readers Digest, telefone 0800-263646, pelo preço de R$ 66,96, incluídas as despesas de envio.


