Enquanto varria o palco do teatro, o compositor e violonista Roberto Menescal ouvia o burburinho do lado de fora. A bossa nova não via nem sombra de sucesso, e os músicos eram obrigados a cuidar de cada detalhe das apresentações. De repente, alguém comentou:
- Está o maior engarrafamento lá fora.
Menescal reclamou:
- Bem no dia do show?
- Mas o engarrafamento é justamente por causa da apresentação.
A surpresa foi geral. O show ‘‘O Amor, o Sorriso e a Flor’’ se tornou um dos marcos do início da bossa nova, sem que seus intérpretes soubessem que caminhavam para um estilo musical que transformaria a música brasileira.
Hoje, 40 anos após o estouro do ritmo, Roberto Menescal comemora a data preparando o lançamento de um CD com músicas inéditas, além de auxiliar a equipe do Reader’s Digest Música, que lançou no início do mês a coletânea ‘‘Bossa Nova - O Amor, o Sorriso e a Flor’’, uma caixa com quatro CDs que reúne as principais músicas do movimento.
‘‘Não é qualquer coisa que chega aos 40 anos. A bossa nova já mostrou a cara, não foi uma coisa passageira. O estilo tem influenciado toda essa geração que veio depois da gente, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo e Marcos Valle’’, comentou Roberto Menescal, em entrevista por telefone à Folha2.
A bossa nova completa 40 anos com novo fôlego no exterior. Além de Marcos Valle e Joyce, que fazem sucesso nas pistas inglesas, o ritmo tem público garantido no Japão, com versões originais ou remixadas, sampleadas com batidas eletrônicas para ganhar ares de dance music.
O pacote lançado pela Reader’s Digest traz clássicos como ‘‘Desafinado’’, interpretado por Gal Costa, ‘‘Samba de uma Nota Só’’, com Nara Leão, ‘‘Águas de Março’’, com Elis Regina e Tom Jobim, ‘‘Berimbau’’, com Baden Powell, ‘‘Samba do Avião’’, com Os Cariocas, ‘‘O Barquinho’’, com o Tamba Trio, e muitos outros.
‘‘Eu fui um consultor, indicava os caminhos, enquanto a equipe negociou os fonogramas com as gravadoras. O trabalho é todo deles e deixo claro que não estou ganhando nada com isso’’, argumenta Menescal, com bom humor.
A coletânea dá um panorama do início da bossa nova até intérpretes atuais, como Leila Pinheiro, Bia e Cláudia Telles. O lançamento tenta contemplar boa parte dos nomes que participaram do movimento, como o próprio Menescal, Oscar Castro Neves, Baden Powell, Tom Jobim, Sérgio Mendes, até predecessores como Dick Farney, Lúcio Alves e Claudette Soares.
Carlos Lyra, que não participa diretamente da coletânea, é representado por ‘‘Minha Namorada’’, composta ao lado de Vinícius de Moraes e interpretada por Bia, ‘‘Sabe Voc꒒, com Nara Leão, além de ‘‘Lobo Bobo’’, ‘‘Saudade Fez um Samba’’ e ‘‘Se é Tarde Me Perdoa’’, com Leila Pinheiro. Johnny Alf também aparece como compositor de ‘‘Ilusão à Toa’’, na voz de Sylvia Telles.
O maior homenageado é Tom Jobim, com várias composições. A grande ausência é João Gilberto. ‘‘Garota de Ipanema’’, uma das principais músicas da bossa nova, aparece na voz pop de Marina - além de uma versão instrumental de Sérgio Mendes & Bossa Rio. Também é difícil entender a presença de Frejat ao lado do Quarteto em Cy em outro marco, ‘‘Chega de Saudade’’.
Embora tente atrair a atenção de novos ouvintes, o lançamento também tem grandes momentos, como o próprio Tom Jobim em ‘‘Insensatez’’ e Roberto Menescal e seu conjunto em ‘‘Surf Board’’.
‘‘Essas coletâneas são importantes para mostrar o que foi a bossa nova, tenho certeza que ela vai virar o século’’, acentua Menescal. O músico revela que hoje trabalha mais pelo movimento do que na época: ‘‘A gente tem essa obrigação eterna, nunca trabalhei tanto como agora.’’ Preparando o lançamento no Brasil de seu novo trabalho, ‘‘Estrada Tóquio-Rio’’, que chega ao País em meados de dezembro com uma série de shows no Bar do Tom, no Rio de Janeiro, Roberto Menescal admite que continua recebendo influências.
‘‘O disco tá chegando, foi um álbum encomendado pelo Japão que foi lançado lá em agosto. Resume desde os primórdios da bossa nova até a produção atual’’, salienta. O compositor revela que suas novas músicas trazem reflexos do blues: ‘‘As composições recentes têm uma cara original, com um pouco de blues, que está muito presente na minha vida. Hoje absorvo essas influências com maior tranquilidade.’’
Aos críticos que apontam a bossa nova como um estilo elitista que diluiu o samba, Menescal responde que não há nada exatamente original: ‘‘Tudo o que você faz é continuidade de alguma coisa. Tivemos influência total do jazz, e a bossa nova veio dessa mistura, nunca neguei. É também um grande orgulho porque teve a contrapartida, nós também influenciamos o jazz. É uma troca. A maior morte é a estagnação, a coisa estática, parada.’’
Roberto Menescal começou a tirar acordes do violão ao ouvir melodias de Johnny Alf, Lúcio Alves e Dick Farney. ‘‘Não tínhamos noção de que uma garotada faria tanta coisa. Mesmo nos primeiros shows, anda não percebíamos o que estávamos fazendo’’, assegura. Após 40 anos, a bossa nova ainda permanece como uma das referências da música brasileira.
O pacote ‘‘Bossa Nova - O Amor, o Sorriso e a Flor’’ pode ser adquirido pela Central de Atendimento do Reader’s Digest, telefone 0800-263646, pelo preço de R$ 66,96, incluídas as despesas de envio.

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