O segredo deste homem estava entre uma tosse e outra. Em 1904, Manuel Bandeira descobriu ser tuberculoso, o que era praticamente uma condenação à morte. Tinha 18 anos. Abandonou os estudos de arquitetura e buscou cidades de clima ameno para combater a doença. A idéia da morte próxima o impeliu a dedicar-se à poesia. Em ''Itinerário de Pasárgada'' (1954), sua autobiografia intelectual, confessou ter virado poeta ''por necessidade, por fatalidade''.
A produção poética passaria a se confundir com a sua biografia. Mas essa associação, sozinha, não explica por que Manuel Bandeira se tornou o São João Batista da poesia brasileira, definição de Mário de Andrade. É notória a declamação de ''Os Sapos'' por Ronald de Carvalho no Teatro Municipal de São Paulo durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Ainda assim, o autor de ''Estrela da Vida Inteira'' (1966) disse ter dívida maior com o modernismo do que o contrário.
''Hoje, como sempre, a poesia de Bandeira representa um arejamento diante de concepções fechadas'', diz Júlio CastaÀon Guimarães. ''Ela é um permanente exemplo das possibilidades de invenção poética'', completa.
CastaÀon é autor de ''Por Que Ler Bandeira'', quarto livro da coleção Por Que Ler, da editora Globo. A obra se divide em cinco partes: Um Retrato do Artista, Cronologia, Ensaio de Leitura, Entre Aspas e Estante. O crítico e poeta mineiro baseou-se sobretudo em Itinerário de Pasárgada para traçar uma breve biografia do escritor pernambucano, ''um dos poucos autores de poemas que estão na nossa memória''. Castanõn apresenta um panorama das obras - poemas, crônicas, prosa, ensaios e traduções. Ele começa com ''A Cinza das Horas'', de 1917, publicada por Bandeira 13 anos após descobrir a tuberculose.
Ele diz ter conhecido as suas limitações técnicas nesse período. Além da leitura de outros poetas, que lhe deram a noção do verso livre, ele bebeu na fonte da música e da pintura. A fatalidade da doença o ensina a exercitar uma atitude humilde diante da vida. A passagem do tempo é massacrante na sua consciência.
O cotidiano invade a sua poética: da matéria banal extrai o sublime: ''A poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas.'' Apesar de falar de alumbramento, seus poemas não eram resultado exclusivo de epifanias, mas de rigoroso trabalho de depuração. Elementos como o beco, o pátio, o quarto e a estrela são recorrentes. ''São, em sua forte concentração lírica, imagens de grande vigor'', diz CastaÀon.
O abandono das formas fixas, como em ''Libertinagem'' (1930), bem lembrou Mário de Andrade, equivale a adquirir ritmos pessoais: ''O verso livre é uma vitória do individualismo.'' Na intimidade do quarto, Bandeira reorganizava com o fio da memória a experiência de mundo.
Ele retornou à métrica em certas obras como ''Lira dos Cinquenta Anos'' (1940). Mas era já um poeta livre, amadurecido em longo processo de sofrimento. Não há engano: a simplicidade de Bandeira, com a qual sintetizou temas complexos como a morte, foi uma conquista diária, árdua. A ponto de a ''vida inteira que podia ter sido e que não foi'' ter se transformado em encontro sereno com o fim, depois de viver 82 anos - ''Quando a Indesejada das gentes chegar/ (...) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar''.

SERVIÇO
- Por Que Ler Bandeira
Autor - Júlio CastaÀon Guimarães
Editora - Globo
Páginas - 114
Quanto - R$ 20

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