Com aquela particular maneira de interpretar a realidade, a imprensa americana se referiu a ''A Casa Caiu'' como o filme que marca a consagração de Queen Latifah, a ''rapeira'' convertida em estrela depois de seu trabalho em ''Chicago''. E mesmo sendo inegável que boa parte do inesperado êxito comercial de ''Bringing Down the House'' (custo: US$ 35 milhões; bilheteria americana: US$ 130 milhões) se deva à subida popularidade da dama, se alguém se destaca pelo talento nesta comédia de Alan Shankman é o velho Steve Martin. É ele, o carismático de sempre, quem não mede talento e sacrifícios para que esta comédia sobre opostos se salve quando parece afundar, é ele quem pacientemente faz lembrar ao espectador que a história não é, afinal, tão inútil quanto parece durante boa parte da projeção.
''A Casa Caiu'' (confira a programação na página 2) é estritamente uma comédia de fórmula sobre uma indesejada amizade surgida entre um advogado branco especializado em matérias fiscais e uma mulher negra recém-saída da prisão. Esta qualificação, ''branco'' e ''negra'', é imposta por um roteiro desprovido de senso de humor (e de veracidade), mas que apóia a maioria das piadas em estereótipos raciais. De qualquer maneira, os realizadores foram cuidadosos o necessário apenas para escapar das restrições da censura, apresentando tanto negros e brancos igualmente como seres terríveis é difícil saber qual das raças é apresentada com pior comportamento.
Assim Steve Martin e Queen Latifah foram reunidos, numa química hollywoodiana provavelmente arquitetada sabe-se lá onde e por quais tipos de executivos de estúdios que julgam infalível qualquer mix de etnias, tiro certo no box-office. É provável e possível que, com melhor material à disposição, a dupla funcione bem melhor. Os dois sabem atuar e são engraçados (admito: uma, até duas boas risadas podem ser extraídas do filme), mas aqui a casa cai muito cedo.
Martin interpreta Peter, advogado obsessivo, divorciado e solitário. Num ''chat'' na Internet, um desses points de amizade cibernértica, ele estabelece uma relação com uma mulher que conhece apenas como ''a garota advogada''. Arranjam um encontro, e logo Charlene (Latifah) aparece na porta de Peter, ex-presidiária buscando assistência jurídica fim de limpar o nome.
É da natureza deste tipo de comédia que as duas pessoas envolvidas devem se odiar antes de se unir. Ela então faz o precisa para tirar Peter do sério, dentro da prescrição da fórmula. Ele se enfurece. Mas quando se espera que a afeição mútua transcorra, vá lá, pelo menos nos limites da fórmula déjà vu, lenta e gradual, o roteirista Jason Filardi e o diretor Shankman cometem intempestiva e medícore audácia. Peter e Charlene migram do ódio mais profundo para a simpatia e a cordialidade em no máximo dois minutos. E por nenhum motivo aparente.
E quando tudo parece perdido, Steve Martin segura e amarra as pontas como pode. Reações, mudanças de humor, timing e expressão corporal sobrevivem ao caos. Há uma longa sequência em que o ator aparece disfarçado numa espécie de Eminem. E há uma outra, quando está aprendendo a dançar ao som da musica soul. Para ajudar, Eugene Levy (''American Pie''), outro comediante com sólidos atributos, comparece em bons momentos como o sórdido branco que só vê sexo na ex-presidiária e Latifah bem que exagera nos trejeitos e cadências de garota sexy do gueto. (C.E.L.J.)

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