Razão e
sensibilidade
A 7ª edição do Festival Internacional de Artes Cênicas de São Paulo - FIAC - pode ser considerada reflexo da trajetória pessoal da presidente do evento Ruth Escobar. ‘‘A Presença do Sagrado nas Artes’’ foi o tema escolhido para o evento. Este ano, os espetáculos acontecem de hoje a 10 de agosto,
no Teatro Municipal de São Paulo e nas unidades do Sesc - Serviço Social do Comércio.
Ruth Escobar desde 1974 trouxe ao Brasil manifestações artísticas de vários países, como também projetou artistas e companhias nacionais. Se considera parte importante da história do teatro brasileiro, quando incendiou os palcos paulistanos com as montagens antológicas de ‘‘Roda Viva’’, de Chico Buarque; ‘‘O Balcão’’, de Jean Genet.
De 1962 a 1982 produziu dezenas de espetáculos, atuou por diversas vezes como Presidente do Festival Internacional de Teatro. Também incursionou pela política, atuando como líder feminista e elegendo-se por duas vezes deputada estadual pelo Estado de São Paulo. Garante que saiu da política sem se contaminar. Em 1987, publicou o livro autobiográfico ‘‘Maria Ruth’’, um bestseller. Recebeu diversas condecorações no Brasil e exterior, sendo a última, este ano, da Legião de Honra do Governo Francês.
Segundo previsões dos organizadores, o 7º FIAC está orçado em 2 milhões de reais, mas até o final do evento esse valor pode ser majorado. Para se ter uma idéia da importância do FIAC, a Curadoria trabalha na seleção dos espetáculos com um ano de antecedência. Nos últimos dias, Ruth Escobar enfrenta até 18 horas diárias de trabalho, comandando um exército de assessores. Enquanto dorme, a cabeça não pára de trabalhar, garante. Amiga do presidente Fernando Henrique Cardoso, nesta entrevista, ela preferiu não tecer nenhuma crítica ao setor cultural no governo FHC.
Há oito anos a atriz e produtora cultural foi para a escaldante Califórnia e mergulhou profundamente num processo de renascimento interior. A escolha do tema do Festival, ‘‘A Presença do Sagrado nas Artes’’, é sinal dessa busca. Está ensaiando sua saída do comando do Festival, mas nada é definitivo. Ruth Escobar falou à Folha, em entrevista exclusiva, sobre o Festival ‘‘zen’’, inteiramente dedicado ao misterioso teatro oriental.
Sagrado nas Artes
A escolha do tema vem ao encontro de minha trajetória pessoal, e com a conclusão de um ciclo de vida, iniciado aos 18 anos, quando parti para a Ásia como repórter, e na verdade, como pessoa buscando um significado mais profundo para a vida cotidiana que se levava no Brasil.
Eu que vinha da Europa, de Portugal, a meio caminho entre as Américas e a Ásia, criaria o pretexto que me faltava para descobrir o que havia por trás da inquietação, da curiosidade em querer saber o que é o Homem, e de que maneira cada civilização afeta e determina esse ‘‘estar no mundo’’.
Último Festival
É verdade que eu considero este como sendo o último Festival que irei presidir. Mas meus colaboradores dizem que todas as vezes que tomo essa direção, aparecem produções artísticas irresistíveis que me fazem voltar atrás. De qualquer maneira, venho realizando um trabalho de autoconhecimento na Califórnia há 8 anos e provavelmente é o que farei ao final do Festival.
Escolha dos espetáculos
Na Ásia, além de ser parte integrante do cotidiano, o sagrado está presente nas diversas formas de manifestações artísticas. Muitos espetáculos são vistos como a representação dos textos sagrados conservados nos templos.
Passei um mês na Índia em 1996, vi os músicos e poetas do Rajastão, inclusive na França no espetáculo de Zingaro, presenciei o trabalho de Ratan Thyiam, um dos mais inventivos criadores indianos hoje; encenações dos episódios do Mahabharata, danças de Manipur e a percussão milenar do templo do Kerala. Da Tailândia, vi o teatro Khôn (A Dança que Fala), com o ‘‘Rapto de Sita’’, versão tailandesa do Ramayana e os monges do Mosteiro de Shetchen da Região Autônoma do Tibete. Mas alguns como Carlotta Ikeda do Japão, o canto P’ansori da Coréia e a Ópera de Pequim da cidade de Dalian, vi em Festivais na Europa.
Leis de Incentivo
O empresariado brasileiro já possui uma tradição em patrocinar o FIAC. Empresas como Volkswagen, Accor, Petrobrás, Varig, Vasp e o Ministério da Cultura através das leis de Incentivo Fiscal. O Sesc - Serviço Social do Comércio de São Paulo - é um grande parceiro do Festival nesses últimos anos.
Teatro ritualístico
Acredito que o público ocidental e sobretudo o brasileiro tem demonstrado sensibilidade e um maior aprofundamento na pesquisa sobre a arte asiática, assim como uma atenção crescente enquanto espectadores distinguido o que é teatro, dança ou uma mescla dos dois, dando a dimensão ritualística de ambas. O que ele irá ver neste Festival é a expressão mais genuína das civilizações e das artes milenares que vêm influenciando até mesmo as expressões artísticas contemporâneas.
Formação do artista
O teatro brasileiro precisa debruçar-se sobre a formação teatral, sobre o rigor técnico e a disciplina que engendram e manifestam o real significado do ser artista numa sociedade em perene mutação. No oriente, os atores se exercitam incessantemente e não separam a tradição e a história milenar de sua sociedade com o momento presente.
Influência sobre os ocidentais
Através de Peter Brook, Andrej Serban, Victor Garcia, Jerzy Grotowsky, Bob Wilson, vemos a noção de tempo inteiramente subvertida e ritualizada. Isso se deve, sim, ao teatro asiático.
Festivais e intercâmbio
A oportunidade de vermos o que vem de tão longe nos faz repensar nossa própria postura enquanto criadores. Sejam festivais internacionais de grande ou pequeno porte ou até nacionais. O que importa é o contato, o intercâmbio com as manifestações mais diversificadas da expressão humana. Isso é a própria arte. A possibilidade de nos aprofundarmos nas diferenças, para encontrarmos nossa própria identidade.
Avanços de FHC
Se compararmos com os governos anteriores, o Governo Fernando Henrique mostrou avanços inegáveis sobretudo nas leis de Incentivo à Cultura. No entanto, não me debrucei totalmente sobre a questão para avaliá-la em sua totalidade.
(F.F.)
Confira a programação do Festival Internacional de Artes Cênicas na página 4

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