Algo estava errado: ninguém conhecia Chuck Berry, Mick Jagger, Vanilla Fudge, Frank Zappa e outros caras desses por aqui. Quem escreveu isso, em letra de fugitivo da escola, foi um imberbe Raul Santos Seixas (1945-1989), nos tempos de militante do rock em Salvador, detectando espaço para uma ponte entre o ritmo americano e a juventude brasileira.
Mas não foi para que conhecessem sua fixação pela ''música de cowboy'' que Raulzito trilhou um caminho absolutamente original dentro da música popular nacional. O rock foi sua paixão e sua perdição.
Para que os neófitos conheçam o melhor dessa história de obsessão visionária, a Universal Music está lançando ''Maluco Beleza'', uma caixa com 6 dos melhores entre os 26 álbuns de Raulzito: ''Krig-Ha Bandolo'' (1973), ''Gita'' (1974), ''Novo Aeon'' (1975), ''30 Anos de Rock'' (1975), ''Há Dez Mil Anos atrás'' (1976), ''Raul Rock Seixas'' (1977).
Os discos são os primeiros solos do artista pela antiga gravadora Philips. Eles vêm acrescidos de oito faixas-bônus, todas raras (são de compactos do cantor, nunca lançados em CD), e o encarte da caixa é ricamente ilustrado, com fotos jamais vistas do Maluco Beleza. A organização é de Kika Seixas, viúva do cantor.
''Ao longo dos últimos dez anos, comprei muita coisa para o acervo de Raul'', contou Kika. ''Entre esse material, adquiri os negativos do fotógrafo Cláudio Fortuna, que tinha muita coisa inédita do Raul, e também de Bethânia e Gal Costa.''
De acordo com Kika, o lançamento é um trabalho que levou três anos, e só foi possível após a resolução de pendências judiciais com a gravadora. ''É um trabalho meticuloso, feito com parcimônia e com distância entre um e outro lançamento, para manter Raul vivo na memória dos fãs'', ela diz. ''O baú do Raul tem fundo, então a gente tem de ser parcimoniosa.''
Foi realmente preciosista a recuperação do material. Kika Seixas foi atrás do técnico das gravações originais dos discos, Luigi Hoffer, que remasterizou seu próprio trabalho. ''É um cara superboa-praça, que tem um estúdio lindo em Jacarepaguá e sabe tudo sobre a obra do Raul.''
Entre as faixas mais remotas dos compactos, está a boa ''Um Som para Laio'', de 1974, agora incluída no CD ''Gita''. ''Na minha cabeça/ Uma guitarra toca sem parar/ Trago um par de fones nos ouvidos/ Para não lhe escutar.''
Raul Seixas tem sido, com idas e vindas, um dos maiores ídolos da música pop brasileira. Segundo lembra Sylvio Passos, do fã-clube do cantor baiano, cerca de 20 livros já foram editados contando sua vida, todos os seus discos já foram reeditados e todo ano tem romaria nos dias de nascimento e morte do astro, 28 de junho e 21 de agosto.
Há basicamente dois tipos de admiradores de Raulzito. Os do tipo ''Eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim'', são os que o seguem de forma mística, festejando-o como um Antonio Conselheiro do rock, buscando revelação em suas letras. E tem os da corrente ''Quando eu era menininho, não pensava em música. Queria ser filósofo'', que são os que o levam demasiado a sério como pensador, um farol intelectual a dar sentido e direção a alguns clichês do ideário hippie.
Mas são os que ouvem com atenção sua música que sabem a verdadeira grandeza de Raul. ''Combinar rock com baião foi a fórmula certa para chamar a atenção. Mas foi só o começo'', afirmou Raul. Quem acha que Chico Science foi pioneiro nessa proposição, está redondamente enganado e precisa ouvir com mais atenção Alceu Valença, Raulzito, Zé Ramalho e Robertinho do Recife, entre outros.
Kika Seixas avisa que está preparando novas supresas para os fãs do cantor baiano. A primeira delas deverá ser um DVD (já existe um homevídeo com o cantor). Depois, uma nova biografia. ''Nunca foi feita uma biografia importante, profunda, a respeito do Raul'', diz ela. E outra surpresa poderá ser um longa-metragem sobre a vida do astro. ''Já fui procurada por alguns cineastas'', revela.
O encarte da caixa também é sofisticado, com textos cheio de minúcias sobre a vida e a obra de Raul como a informação de que repetiu cinco vezes a segunda série ginasial, embora depois tenha se formado em Direito com méritos , com diversos depoimentos colhidos de revistas e jornais.
''Cada vez que eu cumprimentava uma pessoa dava três giros em torno do próprio corpo. Eu era o próprio rock. Eu era Elvis quando andava e penteava o topete. Eu era alvo de risos, gracinhas, claro. Eu tinha assumido uma maneira de vestir, falar e agir que ninguém conhecia. Claro que eu não tinha consciência da mudança social que o rock implicava. Eu achava que os jovens iam dominar o mundo.''
A história musical de Raul começa com a fundação, em 1962 (ao lado dos irmãos Délcio e Thildo Gama), do grupo Os Relâmpagos do Rock. A banda chegou a se apresentar na TV Itapoan. Em 1964, ele mudou a formação de Os Relâmpagos e também o nome. Virou The Panthers que, logo a seguir, também mudaria para Raulzito e Os Panteras.
The Panthers foi a formação com a qual Raulzito gravaria seu primeiro disco, um compacto com as canções ''Nanny'' e ''Coração Partido''. Nanny só seria reeditada em 1992, no álbum ''O Baú do Raul''. Com Os Panteras, Raul profissionalizaria seu rock, passando a rivalizar com a emergente bossa nova. Em 1968, gravou um elepê, Raulzito e Os Panteras, que foi ignorado por crítica e público, lembra o encarte. ''É triste dizer isso, mas Raul vende melhor agora do que quando era vivo'', conta Kika Seixas.

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