Se você não é músico, talvez ache esquisita a idéia de ouvir um CD instrumental - ainda mais se o instrumento principal for um trombone. Afinal, sejamos sinceros: tem instrumento que só mesmo músico para entender e gostar! Mas não é nada disso que acontece com o trombone de Raul de Souza. Aliás, trombone não: souzabone. É isso mesmo, considerado um dos maiores trombonistas do mundo, ele inventou um trombone próprio, elétrico, com quatro válvulas, que ganhou nome especial. E merece. Qualquer um consegue se apaixonar pelo som exato, simples e cheio do trombone de Souza. Não é preciso ser expert em escalas e solfejos para curtir o CD Bossa Eterna, mas preste atenção na virtuose desse músico. O trombone é um dos instrumentos mais difíceis de serem executados - exige muito estudo, porque as notas têm que ser ''achadas'' uma a uma na base da experiência e do ouvido.
Raul de Souza é impressionante. Como personagem, um paradoxo. Impossível imaginar que aquele homem simples já tocou com Sarah Vaughan, Herbie Hancok, George Benson, Ron Carter, João Gilberto, Tom Jobim, Egberto Gismosnti, Gilberto Gil e Maria Bethânia.
João José Pereira de Souza nasceu em Campo Grande, subúrbio carioca, mas cresceu em Bangu, onde seu pai era pastor evangélico. Está explicado o contato com a música, logo cedo. Primeiro, pandeiro, bumbo, caixa e prato. Mas o negócio dele não era percussão. Aos 16 anos ele já tocava tuba - outro instrumento difícil - em uma banda local.
O nome artístico foi um presente de Ary Barroso, na época em que Souza já tocava trombone nas gafieiras cariocas. Apesar do talento reconhecido em programas de rádio, o rapaz não conseguia sobreviver da música. Foi por isso que Souza entrou para a Força Aérea Brasileira, onde ficou até 1963, cuidando da banda da corporação.
No ano seguinte, ele resolve se desligar da FAB e arriscar uma turnê pela Europa com Sérgio Mendes. Depois disso, Souza voltaria várias vezes ao velho continente, sempre acompanhando músicos de renome. Viveu anos em Paris, e uma temporada nos EUA, onde tocou com alguns dos melhores músicos do mundo. Radicado novamente em Paris desde o fim da década de 90, Souza vem de vez em quando ao Brasil para lançar um novo trabalho.
Foi assim que ele resolveu gravar, em março, no ano em que a Bossa Nova comemora o 50º aniversário, um CD comemorativo com participação especial de outro gênio da música, João Donato. Apesar de serem amigos há anos, esta é a primeira vez que os dois - ambos com 73 anos - gravam juntos.
O CD tem 8 faixas, começando com Bossa Eterna, que dá nome ao disco. Raul toca o souzabone nesta e em outras duas canções: Pingo D' Agua e A la Donato (homenagem ao amigo). As outras sete faixas trazem Baden Powell e Vinícius de Moraes (Só por Amor), Tom Jobim (Bonita), Tito Madi (Balanço Zona Sul), João Donato (Malandro, Lugar Comum), João Carlos Pádua (Fim de Sonho) e uma parceria de Maurício Einhorn e Durval Ferreira (Nuvens).

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