Rasi prepara uma comédia elegante
Rasi prepara uma comédia elegante
Mauro Rasi fala do seu novo espetáculo, uma comédia chique que evoca os primeiros filmes em tecnicolor
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Mauro Rasi: Eu só trabalho com quem admiro profundamente
Zeca Corrêa Leite
A classe artística torceu o nariz, mas o público lotou o grande auditório do Teatro Guaíra em plena quarta e quinta-feira, para assistir à montagem de O Crime do Dr. Alvarenga, num elenco encabeçado por Paulo Autran. Programado inicialmente para duas sessões, no 8º Festival de Teatro de Curitiba, teve tamanha procura que os organizadores abriram uma terceira, às dez e meia da noite. O teatro ficou igualmente lotado.
Uma homenagem ao pai Osvaldo Rasi, falecido há três meses, Dr. Alvarenga repete a sina de Pérola, homenagem que o autor prestou à mãe, ao contar as peripécias da família para construir uma piscina, que dona Pérola tanto queria. Se a mãe tinha fixação por uma piscina no tímido quintal, o pai era um dramaturgo frustrado que por toda lei queria ver encenada a peça O Crime do Dr. Alvarenga.
Rasi emoldurou-a com um texto seu, mostrou ao povo de Bauru e de Curitiba, antes de chegar a São Paulo, onde espera ficar por um bom tempo. Próxima parada é o Rio de Janeiro, mas isso vai ficar para o ano 2000. O dramaturgo conversou com a Folha2 no saguão do Teatro Guaíra, no intervalo entre as duas sessões da peça, e anunciou: em outubro estréia em São Paulo um musical em cores quentes, Technicolor de Luxe.
Tem-se a impressão que O Crime do Dr. Alvarenga, como toda sua obra, é uma crônica da vida vivenciada de forma mais pacata. Seria isso?
Pode ser, na medida em que é uma crônica da vida provinciana, do prosaico. É o extrair a dramaticidade e a comicidade do prosaico, dos pequenos acontecimentos do cotidiano. Porque a vida da gente é feita de pequenos acontecimentos.
Você considera que Dr. Alvarenga foi escrita a quatro mãos, entre você e seu pai?
Eu fiz metade dessa peça, porque ela era o sonho de meu pai. Ele era um comerciante que tinha verdadeira paixão por ser dramaturgo. Acontece que ele sonhou nas dimensões de sua cidade natal. Se eu tivesse que definir o que é O Crime do Dr. Alvarenga e o que é meu pai, diria que é um homem que sonhou do tamanho de sua cidade natal. Ele era um personagem de Tchecov, ou de Pirandello, por isso a peça tem essa coisa pirandelliana de ficção e realidade. O grande sonho dele era que eu encenasse essa obra-prima dele, O Crime do Dr. Alvarenga.
Quem era Dr. Alvarenga?
Acredito que o Dr. Alvarenga seja seu alter ego. Meu pai não conseguiu ser um grande empresário nem um grande dramaturgo, porque ficou limitado à sua cidade natal. Tem uma frase na peça que diz tudo: Eu já estive em Paris, mas como Bauru não existe. O universo dele era Bauru, como poderia ser a Itabira de Drummond, a Macondo de García Márquez, ou a aldeia russa de Tchekov. Meu pai morreu três meses atrás e não pôde ver seu grande sonho realizado. Mas estava muito feliz, sabendo que estávamos ensaiando. O Paulo Autran pensou até que fossemos parar com o projeto, mas falei que mais do que nunca ele estava de pé.
Quando você estava escrevendo, imaginou Autran no papel?
Meu grande problema era quem ia fazer o Vado. Porque eu precisava de um ator especial para isso, e acho que teve o dedo do meu próprio pai, porque o Paulo Autran foi amigo da família. Eu conheci o Paulo em Bauru quando tinha 14 anos. Nessa época eu copiava as peças que via em São Paulo para brilhar em Bauru. Copiei Liberdade, Liberdade quando eu tinha 15 anos. Quando ele levou o espetáculo à minha cidade, todo mundo já conhecia. Ele ficou p... da vida mas quando me conheceu, naturalmente se encantou. Eu era um anjo diabólico, um menino gaiato de 15 anos que tinha roubado a peça dele. Aí começou nossa relação. A partir daí ele me paternalizou muito, no melhor dos sentidos, nunca afagando minha cabeça, mas me levando à luta, me instigando para que prosseguisse nas coisas. Então acho que é mais que acaso ou oportunidade ele estar na peça. Acho que tem aí um dedo da providência divina.
Quando você vai ao teatro assistir a um espetáculo, também está buscando seus atores?
Ah, sempre. Quando vejo um ator numa novela estou medindo, avaliando se tem a ver com meu universo, se eu me sentiria bem com aquela pessoa. Tenho uma lista de pessoas pelas quais sou gamado, e sei que mais cedo ou mais tarde vou trabalhar com elas. Porque normalmente a atração é recíproca. Nunca houve um caso de eu não encontrar reciprocidade.
O Crime do Dr. Alvarenga tem uma profunda nostalgia, saudade...
Tem. É uma estética também, né? Porque que eu resolvi fazer o melodrama do meu pai, que na verdade é uma Rebeca cubana, uma Janete Clair travestida de Hitchcock. Foi isso que fiz, travesti aquilo tudo de Hitchcock. Como se fosse um filme B, noir. Um filme da Beth Davis, da Joan Crawford. Por isso os figurinos são todos em degradê de preto e branco e cinza, e a luz tem gelatina cinza. Como o Guairão é muito grande e os refletores não são de última geração, tivemos que abrir muito a luz, mas em recinto mais intimista essa estética do preto e branco fica linda. Em Curitiba tive que botar luz, senão as pessoas não enxergariam.
Você direcionou sempre sua vida para o teatro?
Não. Eu sou músico. Estudei 14 anos de música, e o meu instrumento era o piano. Porque eu ia ser regente; antes de ser escritor queria ser músico. A música tem muito a ver com literatura. Acredito que todo ator teria que tocar um instrumento para aprender a falar, porque o fraseado musical é o fraseado da literatura, da prosa. Estou cantando aqui com você, quando a gente conversa a gente canta. Tem maus atores que não sabem fazer uma interrogação convincente, finalizar uma frase, fazer um pianíssimo, dar um fortíssimo. Nos Estados Unidos, na Europa, além de dançar, sapatear, tem sempre um instrumento no aprendizado do ator. Aqui ele teria que correr por conta própria. Mas ele também deve ler romance, não adianta ler ensaio. Porque o romance narra o desenrolar de uma história e o desenvolvimento emocional dos personagens. A leitura de romance e música são importantíssimas para o ator.
Já que estudou música, você teria interesse em dirigir ou escrever um musical?
Meu próximo trabalho é um musical, vou estrear em São Paulo, em outubro. A música é minha e eu vou tocar em cena. Também vou dirigir. Escrevi e fiz as músicas. As letras não são minhas, tentei escrever mas não consegui.
O musical terá esse tom de cinema?
Sim, são músicas sinfônicas. Eu não tenho nenhum compromisso com a MPB. Adoro MPB mas sou compositor teatral. Essas músicas estão a reboque de um texto teatral. Agora, é o meu musical. Não é a cópia da Broadway. Vou fazer o meu estilo, a minha visão.
Vai ter chapéu e tailleur?
Mas muito chapéu e tailleur! Se passa em 39, imagine que figurino lindo que vai ter. O figurino será de Patrício Bisso, a estrela será Marisa Orth. E chega que não posso mais falar sobre isso.
Mas será em também em tom cinza?
Não, esse será colorido. Será um filme passado em 39, aqueles primeiros Technicolor de Luxe, de cores fortes. Uma comédia elegantíssima, chiquérrima, muito bem vestida, muito bem iluminada. Uma comédia devastadora, diga-se de passagem.





