Rascunho de número 100
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
O jornal literário Rascunho, de Curitiba, chegou neste mês ao número 100. Contando a edição zero, de abril de 2000, são 101 jornais, um número não apenas simbólico como também raro em seu nicho no mercado editorial brasileiro. A força matriz por trás deste veículo mensal, jovem mas desde já longevo, e distribuído gratuitamente, com uma tiragem de 5.000 exemplares, é o jornalista Rogério Pereira, 35 anos. A história do periódico que publica críticas, ensaios, resenhas, entrevistas, contos, poemas e trechos de romances inéditos começou em um jornal da capital no qual Pereira trabalhava e em que o Rascunho foi encartado durantes seus quatro primeiros anos. ''Esperávamos a redação ficar vazia. Chegávamos às 23 horas e editávamos o jornal que sairia no dia seguinte até as 3 horas da manhã'', lembra o também jornalista Alessandro Martins, 34, parceiro de Pereira nas primeiras edições.
Na escolha do nome, havia duas opções. ''Vírgula'' foi deixado para trás depois de uma votação um tanto quanto suspeita. ''O Rogério queria mesmo 'Rascunho' e conduziu para que fosse assim'', comenta Martins, que votou no nome que se manteve. Pereira confirma: deu a votação por encerrada quando ''Rascunho'', um nome que representa o espírito inquietante do jornal, estava na frente. Ele assume que edita o jornal com mão-de-ferro, uma das razões que atribui para a sua longevidade. ''Passo uma lista com nomes dos livros para o colaborador. Ele seleciona os que mais gosta e eu digo sobre o qual ele vai abordar. Definido isso, ele escreve o que quiser'', comenta. As críticas ácidas já deram muito pano para manga e problemas de sobra para Pereira, que, apesar das dores de cabeça, pensa em fazer o jornal até o seu último suspiro.
O que mantém o sonho em funcionamento, além da paixão e força de vontade do jornalista, são seus colaboradores, que não recebem um tostão, e a venda de espaços publicitários. ''O Rogério não tinha dinheiro e nem uma sede e mesmo assim o fez'', comenta o escritor carioca José Castello, que colabora desde o início. Para apontar a relevância do veículo, ele conta que, mesmo tendo diversas atividades - entre outras, escreve para o Prosa e Verso, suplemento cultural do jornal O Globo - é comumente apresentado como ''colunista do Rascunho''. O escritor mora há 15 anos em Curitiba e, no início, recebeu inúmeras sugestões de intelectuais para não se envolver com o jornal. ''Muitos dos que hoje elogiam e mesmo participam como colaboradores falavam para eu ficar longe e não participar de um projeto com esses garotos malucos. O Rogério teve de enfrentar muita resistência.''
Na capa da primeira edição, contrariando o slogan ''O jornal de literatura do Brasil'', o Rascunho estampava como destaque de suas oito páginas um texto sobre o livro ''Antes do fim'', do argentino Ernesto Sabato. Hoje, oito anos e quatro meses depois, o jornal cresceu, tendo em sua edição comemorativa 40 páginas no formato standard, oito a mais que seu padrão atual, 32. Para receber em casa, 700 pessoas pelo País pagam a anuidade de R$ 50. Os outros 4.300 exemplares mensais são distribuídos entre as 16 lojas da Livrarias Curitiba, os Faróis do Saber, cafés, além de chegar à residência de outras 800 pessoas, que formam uma lista de nomes de destaque na literatura pelo País. Eventualmente, alguns são enviados para eventos como a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), caso do mês passado, e dos 2 mil que seguem este mês para a Bienal do Livro de São Paulo.
Edição comemorativa - Em seu número 100, o Rascunho apresenta trecho inédito de um romance que Sérgio Sant'Anna está escrevendo e textos de vários autores, distribuídos no caderno ''Dom Casmurro''. Entre eles, um de Marçal Aquino, 50, escritor bastante conhecido pelos roteiros de filmes como ''O Cheiro do Ralo'' e ''O Invasor''. ''Acredito que 90% das pessoas que fazem algum tipo de literatura interessante no Brasil lêem o jornal'', comenta Aquino. O escritor assistiu, ao longo do tempo, ao nascimento de diversas iniciativas de veículos literários no Brasil. ''Eles começam a falar apenas de literatura, mas acabam abrindo as pernas, fazendo resenhas de DVDs e outras coisas. O Rascunho tem o mérito de se manter como o único jornal do País exclusivamente dedicado à literatura'', diz. O escritor paulista vê o conteúdo do veículo como um misto de insanidade e heroísmo, que entende como a representação ideal do que é escrever livros no Brasil. O caderno ''Viramundo'', espaço para a literatura estrangeira publicada no País, com oito páginas sobre os conterrâneos portugueses, completa a edição número 100, que foi realizada por cerca de 50 colaboradores e colunistas,
''O Rascunho é escrito pelo doutor em Letras pela USP e também pelo jornalista de redação. Por sua diversidade, pode ser lido pelos membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) e pelo leitor menos instrumentalizado'', comenta Pereira. A proposta, na opinião de seu criador, consegue, então, alcançar diferentes públicos. Variedade que, também, faz com que o próprio Pereira não goste de muitos dos textos que publica, mas que enxerga neles a sua importância. Por fim, acredita que o Rascunho, um sonho que saiu do papel para se tornar jornal mensal, esteja efetivamente cumprindo o seu objetivo ao ajudar a fazer dos livros parte da vida cotidiana das pessoas.
SERVIÇO
- Site do Rascunho: www.rascunho.com.br


