RARIDADES GARIMPADAS
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terça-feira, 25 de setembro de 2001
Nelson Sato<br> De Londrina 
É temporada de resgates históricos. Uma pilha de títulos antigos foi garimpada no baú da MPB e começa a ganhar formato de CD. Quem vasculhar as prateleiras das lojas das grandes capitais, vai se espantar com os lançamentos desse mês, muitos deles comercializados a preços absurdos no mercado de vinil.
Os lançamentos chegam em dois pacotaços das gravadoras Universal e BMG. O primeiro, intitulado ''Samba & Soul'', é uma coleção de 12 CDs com a nata da black music brasileira. O foco do pacote é a década de 70, auge do gênero, que é reabilitado em álbuns memoráveis dos principais nomes da vertente.
Jorge Benjor, na época Jorge ''Ben'', é a exceção da fornada com alguns discos dos anos 60. Outra exceção é Sérgio Sampaio, mas por seu perfil pós-tropicalista, que torna impreciso o conceito da fornada. Seu legendário álbum ''Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua'' (1973), todavia, é um dos destaques da coleção.
Todo o trabalho de pesquisa foi feito por Charles Gavin, baterista dos Titãs e responsável por uma série de reedições em outras gravadoras. Os discos foram remasterizados a partir das fitas originais num processo que procurou respeitar também as capas trazendo reproduções fiéis dos LPs.
De Jorge Ben foram restaurados quatro títulos, dois deles considerados ''obras-primas'' de sua discografia: ''Samba Esquema Novo'' (1963), seu trabalho de estréia, e '''África Brasil'' (1976), com a célebre ''Taj Mahal'', cujo hipnótico refrão seria plagiado posteriormente pelo roqueiro inglês Rod Stewart no hit ''Do you thing I'm Sexy''.
Gerson King Combo, saudado como o ''James Brown dos trópicos'', ressurge em formato digital com seus dois primeiros álbuns falando de racismo, liberdade e orgulho de ser negro. Lady Zu, rainha brazuca da disco music, também volta às lojas com dois títulos (''A Noite Vai Chegar'' e ''Fêmea Brasileira'') no resgate mais datado do pacote.
O grupo União Black, o menos conhecido dessa turma, foi lembrado com seu disco homônimo, ítem fundamental nos bailes de samba-rock em voga atualmente em São Paulo. O cantor Hyldon reaparece com seu ótimo álbum de estréia ''Na Rua, na Chuva, na Fazenda'' (1975), que contém os sucessos ''As Dores do Mundo'', ''Na Sombra de uma Árvore'' e a faixa-título.
Outro mestre de baladas soul, Cassiano, figura no projeto com ''Cuban Soul - 18 kilates'' (1976) onde traz para o laser canções como ''A Lua e Eu'' e ''De Bar em Bar''. Cassiano carimba também o pacote ''100 Anos de Música'', que a gravadora BMG está lançando esta semana como parte das comemorações do centenário da RCA Victor (selo incorporado em 1986).
São 20 títulos originais reeditados pela primeira vez em CD. O álbum ''Imagem e Som'' (1971), de Cassiano, linka esta fornada à anterior ao lado de ''Gafieira Universal'' (Banda Black Rio), ''Se Todo Mundo Cantasse Seria Bem Mais Fácil'' (Wilson Simonal) e ''Quinteto Ternura'' (Quinteto Ternura). A black music brasileira, contudo, constitui apenas um segmento do pacote cuja abrangência musical reúne samba, bossa nova, MPB e ritmos nordestinos.
Entre as preciosidades, consta o primeiro álbum de João Bosco, gravado em 1973 e cujo repertório inclui ''Bala com Bala'', sucesso na voz de Elis Regina. ''The New Sound of Brazil'' (1965), de João Donato, é outro ítem de colecionador. Foi gravado em 1965 nos Estados Unidos inaugurando sua longa trajetória fora do país.
O repertório reúne parcerias com João Gilberto (''Forgotten Places'' e ''Glass Beads'') e temas de Tom Jobim, Dorival Caymmi, Luiz Bonfá e Roberto Menescal. Outra jóia só encontrada em sebos é ''Alaíde Costa Canta Suavemente'' (1959), segundo LP da cantora na qual ela empresta sua voz límpida e delicada aos mestres da Bossa Nova.
Também ligada à Bossa, a cantora Miúcha gravou dois discos com o maestro Tom Jobim. É o primeiro, de 1977, que chega ao público agora em CD reunindo canções como ''Vai Levando'', ''Pela Luz dos Olhos Teus'' e ''Maninha''. O disco, produzido por Aloysio de Oliveira, contou com a participação especial de Chico Buarque como cantor e compositor.
O samba de Cartola foi brindado na fornada com ''Cartola 70 Anos'', registro de 1979 crivado de pérolas como ''O Inverno do Meu Tempo'', ''A Cor da Esperança'' e o samba enredo ''Ciência e Arte'', recusado para o desfile de 1949 pela Mangueira mas regravado por Gilberto Gil.
Outro álbum que está fora de catálogo há décadas, ''Modo Livre'', marcou a estréia fonográfica de Ivan Lins na RCA Victor. O título faz referência ao grupo que o acompanhava na época. O disco gerou sucessos como ''Abre Alas'', ''Deixa eu Dizer'' e ''Essa Maré'', todos em parceria com Ronaldo Monteiro de Souza. Não fica atrás, no quesito raridade, o álbum ''O Romance do Pavão Mysteriozo'', do cearense Ednardo.
É o primeiro trabalho-solo do artista, que surgiu no começo dos anos 70 com o grupo Pessoal do Ceará. O cantor estourou nas paradas com a inclusão da faixa-título na abertura da novela ''Saramandaia'' em 1975. Completam o pacote títulos de Alcione, Carmen Costa, Luiz Gonzaga, Cauby Peixoto, Cesar Camargo & Cia, Gordurinha, Orlando Silva, Os Originais do Samba e a reunião mítica de Nelson Cavaquinho, Candeia, Guilherme de Brito e Elton Medeiros no álbum ''Quatro Grandes do Samba''.
Mas esse é apenas o primeiro lote comemorativo da RCA. No final do ano, o baú vai ser vasculhado outra vez com novos relançamentos.


