Raridades do Paraná
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de abril de 1998
Elisa Marilia Carneiro 
ReproduçãoDesenho de expedição pelos Rios Ivaí, Paraná, Paranapanema e Tibagi retrata o cacique Cayowá em trajes de inverno. Desenho de Joseph e Franz KellerTestemunhos da história do Paraná, pertencentes ao acervo do pesquisador e colecionador Newton Carneiro, estão reunidos na exposição Raridades Documentais Paranaenses, que será aberta amanhã, às 19 horas, na sede da Fundação Cultural de Curitiba. A mostra faz parte de um projeto aprovado pelo Programa Nacional de Incentivo à Cultura e está na fase de busca de patrocinadores.
Entre as peças estão obras de viajantes, artistas e colonizadores estrangeiros como Michaud, Lloyd, Rumbelsperger, Palliere e os Keller, que retratam paisagens e cenas da vida paranaense.
De acordo com José Álvaro Carneiro, filho do colecionador, as obras mais significativas são as de João Leão Palliere, referentes à erva-mate. Seus quadros estão entre os poucos registros desse tema. Nascido no Rio de Janeiro, em 1823, filho do pintor Armand Palliere (o introdutor da litografia no Brasil), João Palliere formou-se em Roma e Paris e, ao retornar à América Latina, em 1856, passou a viver em Buenos Aires.
Destacam-se, entre as iconografias, a aquarela de William Lloyd, Casa Grande da Colônia Tereza e seu interior - única imagem conhecida no núcleo fundado por Dr. Faivre no Alto Ivaí. Lloyd, engenheiro ferroviário inglês, foi convidado pelo Visconde de Mauá, em 1873, para dirigir a comissão técnica que elaborava o projeto da estrada de ferro Antonina-Miranda (Mato Grosso do Sul). Assim, o engenheiro permaneceu por quase dois anos no Paraná.
ReproduçãoDesenho de floresta virgem feito por William Michaud
O engenheiro belga Gustavo Rumbelsperger também foi um dos aventureiros convidados por Dr. Faivre para participar da colonização dos sertões do Alto Ivaí. Ele foi o responsável pelos projetos de edificações, estradas e divisões de áreas da Colônia Tereza. As suas pranchas, apresentadas nessa exposição, são os primeiros projetos urbanísticos do Paraná. Duas dessas pranchas são os primeiros mapas de uma cidade. Num Estado governado por um urbanista, não é incrível que isso esteja ainda na mãos de particulares?, argumenta José Álvaro.
Numa expedição pelos rios do Paraná, contratados pelo governo imperial, os engenheiros Franz e o seu pai Joseph Keller também fizeram o registro ilustrativo das paisagens paranaenses. As peças mais importantes são as referentes aos índios Kayoás, pois forneceram detalhes preciosos sobre essa tribo. Os trabalhos dos Keller, além de documentais, destacam-se pela qualidade artística.
As paisagens e o detalhamento da flora do litoral paranaense são temas das obras do pintor William Michaud, que se estabeleceu em 1854 na colônia de imigrantes suíços formada no Superagui. Segundo Cassiana Lícia de Lacerda, organizadora da exposição, com a aquisição das iconografias que integram o acervo de Newton Carneiro, serão mantidas no Paraná os mais significativos trabalhos de Michaud, condição que tornará o Estado o principal centro brasileiro das obras do pintor suíço. Muitas de suas obras encontram-se também no Museu de Vevey (Suíça).
Desta forma garantimos que esses documentos não saiam do Estado. A este acervo juntam-se algumas obras adquiridas pelo prefeito Cássio Taniguchi como mapas, vistas e atlas, afirma Cassiana. Ela reconhece a importância das ilustrações do início do século 19 para a cultura do Estado.
Com esse projeto garantimos a permanência no Paraná desse precioso acervo, que reúne peças fundamentais da nossa história. O fato de ser adquirido por um órgão público, como a Fundação Cultural, permite que um maior número de pessoas tenham acesso a essas informações, afirma a presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Margarita Sansone.
José Álvaro Carneiro reconhece que o pai e o tio - Newton e David Carneiro - juntos, com paciência, esforço e dinheiro próprio, guardaram praticamente toda a História do Estado. Meu pai colecionou o maior conjunto iconográfico que existe no Estado e o irmão dele, nada menos do que um museu, riquíssimo em peças, obras e documentos históricos. É premente o resgate desses acervos para que a comunidade possa ser senhora dessa História, diz. Isso merece reflexão mais do que apenas uma exposição.
Carneiro afirma ser a única pessoa no Estado que possui registro nos principais mercados de documentos históricos no País e no exterior. Recentemente comprei uma carta do presidente de província Afonso Camargo, sobre a colonização do Estado. É preciso ficar atento. A Lei Rouanet é o único caminho para que a História do Paraná não seja corroída pelo tempo. Mais do que moderno, o Estado precisa ser contemporâneo, conhecer melhor ele próprio.
Entre as raridades expostas há ainda documentos curiosos como um rol de dotes de uma moça de Paranaguá, registrado e atestado por Inácio Lustosa, em 1817. E mais, ainda do universo feminino, um caderninho de anotações de danças, do final do século passado. Isso não são só estórias mas História e precisa ser visto por meninos e meninas, reconhece José Álvaro.
Exposição Raridades Documentais Paranaenses Sede da Fundação Cultural de Curitiba Praça Garibaldi, 7. De hoje a 31 de maio, de segunda a sexta-feira das 9h às 18 horas e domingos, das 9h às 13 horas.


