RARIDADES - Nas pegadas de um gênio
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quem acha que já foi publicado tudo de Mário de Andrade, ou que tudo já foi estudado sobre sua obra, deveria consultar o prelo das editoras e os departamentos de Ciências Humanas das universidades brasileiras. Além de parte de suas correspondências permanecerem inéditas, suas idéias continuam estimulando pesquisas no mundo acadêmico.
O autor de ''Macunaíma'' morreu há exatamente 60 anos. ''Mário é muito mais que o 'papa do modernismo' e outros chavões usados para definir sua trajetória. Ele era um renascentista, um homem genial cuja amplitude de pensamento ainda é desconhecida do público. Na literatura, renovou a ficção e foi um dos grandes poetas do século 20. E como pensador da cultura, deixou uma contribuição enorme para o conhecimento da música e do folclore brasileiro'' diz o entusiasta Carlos Okawati.
Okawati é professor da rede pública de ensino e diretor do Colégio Estadual Padre Wistremundo Roberto Perez Garcia. Foi dono de um sebo, que batizou com o nome do escritor. Colecionador de livros relacionados a Mário de Andrade, possui cerca de 380 títulos incluindo raridades como um volume de ''Macunaíma'', publicado em 1928 pela editora de Eugênio Cupelo numa edição de 800 exemplares.
Guarda também um exemplar do romance ''Amar, Verbo Intranzitivo'' (com ''z'' mesmo), lançado em 1927 pela Casa Antonio Tisi. ''Paguei caro por esse livro. Comprei pela Internet, dividindo em seis parcelas'' conta, negando-se a revelar o preço. Nem tudo, porém, foi conquistado lesando o bolso. Ele conta que pagou quase nada por números antigos (publicados na década de 30) da revista ''Atlântico'', para a qual Mário colaborava regularmente com artigos.
Encontrou os exemplares vasculhando sebos em Londrina. Okawati persegue todos os textos assinados pelo escritor em jornais e revistas. Corre atrás das publicações originais, recusando fotocópias. Um de seus achados é uma série encardernada de edições do suplemento cultural do jornal do Estado de S. Paulo, publicadas entre 1938 e 1939. ''Muitos dos artigos publicados ali ainda não foram editados em livro'' diz.
Para atualizar o acervo, mantém contatos com marioandradinos fervorosos, donos de sebos e distribuidores. ''De vez em quando, eles me mandam títulos que faltam em minha coleção'' salienta. A devoção à obra de Mário de Andrade o levou a conhecer José Bento Faria Ferraz, 92 anos, secretário particular do escritor de 1934 e 1945. Há três anos, reuniu amigos para visitá-lo em São Paulo documentando o encontro em vídeo.
No ano passado, foi anfitrião do mesmo José Bento convidando-o para dar palestras e participar de homenagens e bate-papos informais em Londrina. Tornaram-se amigos e passaram a trocar correspondências, a exemplo do que fez o mestre de ambos durante grande parte de sua vida. O diálogo epistolar de Mário, aliás, não tem equivalência entre os intelectuais brasileiros tal a profusão de escritos deixados pelo autor.
Um ano após sua morte, o crítico literário Antonio Candido profetizou que suas cartas constituiriam ''o maior monumento do gênero em língua portuguesa''. ''O Mário tem 7 mil cartas arquivadas que, aos poucos, estão sendo publicadas. Mas há muito ainda para sair. Há 13 livros no prelo com esse material'' garante Okawati. O colecionador assinala que ''tudo o que ele escreveu tinha tanto conteúdo que seus textos continuam atuais, dando respostas para muitas questões''.
Uma das questões é a globalização, cujos críticos a atacam sobretudo por supostamente dizimar as manifestações culturais regionais. ''Há hoje uma tendência à homogeneização, apesar das resistências'' afirma. ''O Mário foi um defensor da cultura popular, que procurou preservar documentando suas manifestações através de gravações, textos e fotografias. Foi assim que ele resgatou as modinhas imperais, que estariam esquecidas não fosse seu trabalho de pesquisa e registro''.
Nos anos 30, convém lembrar, o escritor deu uma guinada em sua trajetória distanciando-se das influências estéticas cosmopolistas que o levaram a participar da Semana de 22. Interessado nas criações artísticas genuínas do interior do País, fez duas viagens ao Nordeste passando a defender o folclore como base para a construção de uma cultura nacional. ''Ele é um dos grandes teóricos da identidade brasileira ao lado de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Por isso, ainda precisa ser estudado em sua totalidade'' salienta.
Mário morreu no dia 25 de fevereiro de 1945, vítima de ataque cardíaco. Na ocasião, um crítico comparou sua perda à de Machado de Assis, o que já apontava a medida de sua grandeza.


