Raridade remasterizada
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2002
Mauro Dias 
São Paulo Era o início dos anos 60. A Bossa Nova, consolidada, conhecida no mundo, tinha seus mitos, consolidados, núcleo fundador Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal. Uma segunda geração começava a formar-se, composta de gente que se espelhava naquela turma original.
A primeira geração reunia-se na casa de Nara Leão, em Copacabana, no fim dos anos 50. A segunda, principalmente na casa do pianista Marcos Valle, que tinha um piano e gostava de fazer festas. Nara foi, naturalmente, a musa da primeira geração. A musa da segunda Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime era Wanda Sá.
Ela era bonita, inteligente, tocava violão muito bem, cantava com voz soprada, intimista, como se no ouvido da gente, direto para cada ouvinte, quase como se não estivesse cantando, mas contando um caso necessariamente, um caso de amor.
Em 1964, Roberto Menescal resolveu produzir um disco para Wanda Sá. Escolheu músicas daquela turma nova, mas coisas dele mesmo, Menescal, outras de Tom Jobim, um canto pungente de Luiz Roberto e Geraldo Vandré, outro de Durval Ferreira, Maurício Einhorn e Bebeto (do Tamba Trio).
Juntou um time de músicos de primeiríssima linha: ele mesmo, ao violão e assinando os arranjos, mais os pianistas Eumir Deodato, Tenório Jr. e LuizCarlos Vinhas, o baterista Edison Machado e João Palma, o percussionista Dom Um Romão, o contrabaixista Sérgio Barroso e outros bambas.
O resultado foi o elepê Wanda Vagamente, lançado pela RGE. Foi uma febre, um grande acontecimento, um dos discos mais populares de seu tempo. Repertório esplêndido, arranjos impecáveis, a voz deliciosa de Wanda, uma capa moderna - a loirinha Wanda descalça, de vestido de listras grossas, como mandava o tempo, arrastando o violão pela areia, olhando para o longe.
Vagamente era uma bossa radical, inédita, de Roberto Menescal, com letra de Ronaldo Bôscoli: Só me lembro muito vagamente/ Correndo você vinha/ Quando de repente/ Seu sorriso, que era muito branco/ Me encontrou/(...) Só me lembro muito vagamente/ O quanto a gente amou, e foi tão de repente/ Que eu nem lembro/ Se foi com você/ Que eu perdi meu amor.
E a Bossa Nova perdeu Wanda Sá, que se casou com Edu Lobo e abandonou a carreira. Para retomá-la ao menos em disco exatamente 30 anos depois, quando lançou o CD Brasileiras, em que dividia vozes e violões com Célia Vaz (lançado pela CID, já esgotado, o disco teve participação especial do Quarteto em Cy, de Nana Caymmi, Gal Costa, Joyce e Márcio Mallard para que se tenha uma idéia de quanto Wanda era considerada).
A boa notícia é que Wanda Vagamente o elepê, jamais reeditado, virou raridade dessas disputadas a tapa saiu finalmente em CD, pelo selo Dubas, que pertence ao compositor Ronaldo Bastos.
E chegou ao CD em grande estilo, remasterizado, com entrevista da Wanda e Roberto Menescal no encarte, capa original mantida e o acréscimo de três faixas-bônus gravadas, duas, em 1965, nos Estados Unidos, cantadas em inglês: So Nice (Samba de Verão), Quiet Nights of Quiet Stars (Corcovado); e, gravada em 1969, To Say Goodbye (Pra Dizer Adeus).
O time de acompanhamento muda, mas não perde a qualidade: na primeira e na segunda faixas-bônus, piano de Sérgio Mendes, baixo de Tião Neto, bateria de Chico Batera, violão de Rosinha de Valença, sax alto de Bud Shank; na terceira, sax alto de Paul Desmond, baixo de Ron Carter, violão de Dório Ferreira e bateria de Airto Moreira, arranjo de Don Sebesky.
O registro original de Wanda Vagamente tem 12 faixas. A maior parte delas, inédita, ou quase coisas que a roda tocava. Vinícius de Morais deu de presente para ela uma parceria com Francis Hime, Sem Mais Adeus - questão de dar força para a menina, como Roberto Menescal conta no encarte do disco. Roberto Menescal era pai recentíssimo de Adriana, para quem compôs um tema em 5 por 4, compasso comum no jazz, incomum na música brasileira. Adriana, a canção, que tem letra de Fernando Freire, de fato, faz lembrar as músicas de Dave Brubeck do tempo de Take Five.
Vinícius fez ainda Só me Fez Bem, com Edu Lobo, no dizer de Menescal o menino da turma da Wanda. Mais tarde, Edu gravaria Só me Fez Bem em dueto com Maria Bethânia.
De Marcos Valle, Menescal e Wanda escolheram E Vem o Sol, bossa vigorosa com letra de Paulo Sérgio Valle, irmão de Marcos; Wanda compôs com Nelson Motta o sincopado Encontro - é sua única participação autoral em Vagamente. Francis Hime, além da citada Sem Mais Adeus, comparece com Mar Azul, letra de João Vitório Maciel. De Tom Jobim, duas: Vivo Sonhando, só dele, e Inútil Paisagem, com Aloísio de Oliveira.Completando o repertório, Tristeza de Nós Dois, de Durval Ferreira, Maurício Einhorn e Beteto, e Tristeza de Amar, de Luiz Roberto e Geraldo Vandré.
Na retomada da carreira, Wanda tem feito belos discos, dos quais, infelizmente, se tem pouca notícia. Os mais novos marcam, um, encontro com Menescal e Marcos Valle, e outro, com o Bossa Três. Foi o último trabalho de Luís Carlos Vinhas.


