Rapsódia in blue
Já fui tomada por pensamentos, sentimentos, impressões. Mas nunca havia sido tomada por uma cor. Até que passei a enxergar o azul em tudo. Primeiro criei uma fantasia com o turquesa, à que considero azul absoluto, aquele em que todos os matizes se encontram, uma fusão de mar, céu, horizontes, montanhas que não terminam, o ar em camadas, a respiração de Deus.
Não à toa, um dia o homem foi ao espaço e declarou: ''A Terra é azul'', porque viu ao seu redor a soma do éter, do vapor da vida, da vibração diáfana da matéria. Com o olhar invertido, da Terra para o Universo, também o infinito é azul. Assim, não é difícil ver a cor em tudo e ela me apareceu também num sonho. Como fundo de uma cena, onde visitei personagens de uma velha história.
Depois, o azul transformou-se em verbo e me deparei ao acaso com o texto magnífico do poeta Nuno Júdice que criou a ''receita'' da cor, publicada aqui no último domingo: ''Se quiseres fazer azul, pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande, que possas levar ao lume do horizonte; depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada, até que ele se desfaça...para que as cores não se desprendam com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali o puseste...''
O azul deste texto me pegou, mas também fiquei pensando no ''caroço de pêssego queimado'', a infiltrar na poesia alquímica quem sabe o ouro, aquele que a fruta guarda em seu interior, ''amêndoa'' que eu às vezes encontrava nos quintais, como um tesouro. E me lembro da infância toda feita de descobertas inusitadas.
A partir do texto de Nuno Júdice, escrevi a crônica ''Vamos recriar o azul'', em que a cor aparece como o símbolo dos sonhos. Todos os sonhos, os desejos que clamam pela realização, mas que se perdem quando realizados, porque a realização traz a felicidade, mas também a consecução do sonho.
O azul, como os sonhos, também atordoa, causa delírios. Talvez a loucura seja azul, assim como a criatividade, e a esta cor cederam pintores como Picasso - em sua Fase Azul - e Van Gogh, um alucinado pelo amarelo que um dia descobriu o infinito na paleta e pintou ''Noite Estrelada'', vertigem cromática de um artista perturbado pela beleza noturna.
Mas aonde me leva o azul? Para os mares e seu eterno fluxo e refluxo, balé de ondas, coreografia lírica de uma gigantesca massa líquida? Aonde me leva o azul? Para o céu escancarado no rompimento das nuvens, no transbordar das chuvas que, nesta época, quase não me deixam ver o horizonte translúcido e as nuances do poente?
Talvez eu esteja com saudades do céu, com saudades do mar. Desejando pegar o azul para tingir as mãos, como uma artista ou uma alienígena que foge à cor da pele para recriar-se, como uma fantasia. E me lembro também da mítica rosa azul, aquela só existe na imaginação dos poetas, embora jardineiros persistentes a inventem, tendendo sempre para o violeta ou o azul escuro. Nunca o azul turquesa, inatingível matiz que só se encontra em fundos de oceano, pedras raras, peixes exóticos, telas reais ou imaginárias, a vibração de um anjo rebelde, porque o turquesa é vibrante, erótico por natureza, beleza que contém a emergência de alguns estados de espírito. Rapsódia in blue, como a obra-prima de George Gershwin.
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