Agência Estado
Uma rosa é uma rosa é uma rosa, dizia Gertrude Stein. Mas uma rosa também pode ter outros (múltiplos) significados. Uma rosa despetalada, sobre a qual avança um batalhão de formigas, pode ser a representação da bomba atômica, como no filme de Akira Kurosawa ‘‘Rapsódia em Agosto’’. Grande Kurosawa. Quando ele morreu, em setembro do ano passado, os críticos não se cansaram de lembrar suas obras-primas. Ninguém colocou ‘‘Rapsódia em Agosto’’ entre elas, mas é um belo filme. Possui algumas das cenas mais impressionantes que o sensei (mestre) do cinema japonês rodou ao longo de sua carreira.
‘‘Rapsódia em Agosto’’ está sendo lançado em DVD pela Versátil num pacote que também inclui ‘‘O Monstro’’, uma comédia do tempo em que Roberto Benigni ainda não havia estourado com ‘‘A Vida É Bela’. ‘‘O Monstro’’ comporta algumas situações divertidas na história de um pobre diabo confundido com um perigoso delinquente. Mas não se compara a ‘‘Rapsódia em Agosto’’. O DVD é um item para colecionador. Tem making of, filmografia, relação de prêmios, curiosidades, tudo o que você queria saber sobre o filme e não sabia onde pesquisar.
O agosto do título refere-se duplamente ao mês em que os americanos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, mas também a esse outro mês, 45 anos depois, em que uma avó (a genial Sachiko Murase) recebe os netos na segunda cidade. Entre os tantos temas possíveis de ‘‘Rapsódia em Agosto’’ estão o silêncio e a comunicação. A avó recebe uma amiga. Ficam as duas em silêncio. A avó explica que, às vezes, para comunicar-se, as pessoas precisam ficar caladas. Mais tarde numa cena cheia de significados, ela reúne os netos e ficam todos silenciosos, à luz da lua.
Para Kurosawa, a explosão da bomba atômica é algo infilmável. É algo que não pode nem ser verbalizado, porque não existem palavras que consigam expressar tamanho horror. Para tratar o tema, só como memória. A avó é atormentada pela lembrança da bomba que lhe aparece como um olho imenso, no céu. Seus filhos tentam esquecer o fenômeno, aparece um sobrinho nipo-americano (Richard Gere) para purgar sua culpa. Os netos encaram a bomba como algo distante. Kurosawa conduz o espectador com essas crianças pelos desvãos da memória para propor uma consciência. O filme é uma lição, dada com sabedoria.
As grandes cenas: os netos passeiam por Nagasaki, encontram o ferro retorcido do local em que a bomba explodiu; param diante da pedra que lembra os sobreviventes da explosão. Eles suplicavam por água; num gesto que faz parte das emoções memoráveis do cinema, os netos fazem o ritual de espargir água sobre a pedra. Tudo isso é sublime, mas o melhor é a imagem das formigas avançando sobre a rosa. A rosa vermelha de Kurosawa adquire seu significado profundo: é o horror da bomba transformado em beleza e poesia.
‘‘Rapsódia em Agosto’’. Japão, 1991. Direção de Akira Kurosawa, com Sachiko Murase e Richard Gere. Lançamento em DVD da Versátil. À venda (média de R$ 32 a R$ 34,90) no Carrefour.

mockup