Rio, 27 (AE) - O rapper MV Bill, apelido artístico de Alex Pereira Barbosa, pretende levar ao público de classe média histórias e ritmos da Cidade de Deus, conjunto habitacional da zona oeste da cidade, criado nos anos 60 para abrigar moradores de favelas da zona sul que haviam sido derrubadas.
Não são histórias alegres. MV Bill se considera um porta-voz dos humildes. Para passar suas mensagens sobre o dia-a-dia dos pobres de sua região, usa atabaques, bateria eletrônica e backing vocal à moda americana. O assunto de seus raps são meninos cooptados pelo narcotráfico, famílias que se escondem dentro de casa dos tiroteios da rua e a vida dura de quem, quando encontra emprego, viaja horas para chegar ao trabalho e, no fim do mês, se vira com um salário mínimo.
A mensagem agrada. Tanto que ele acaba de lançar seu primeiro CD, Traficando Informação, pela gravadora Natasha. O disco havia sido lançado anteriormente pelo selo independente Zâmbia, o mesmo dos Racionais MC, mas agora recebeu tratamento de artigo de luxo. Teve direito a festa de lançamento no mês passado, para 10 mil pessoas na escola de samba Mocidade Unida de Jacarepaguá (bairro onde fica a Cidade de Deus), e entrevista coletiva na sexta-feira, com a presença de jornalistas de todo o País.
Aí começa a originalidade de MV Bill. Ele exigiu que os jornalistas fossem falar com ele na Cidade de Deus, onde nasceu, foi criado e começou a fazer música, primeiro compondo e cantando sambas com o pai. "Eu teria vários motivos para me envergonhar e para me orgulhar de morar na favela, mas pretendo morar sempre aqui porque não me considero uma estrela e sim um integrante desta comunidade", disse ele na coletiva.
Essa militância começa a partir do nome, pois para ele MV quer dizer Mensageiro da Verdade. "Normalmente os artistas de rap e hip-hop são chamados de MC, ou mestre-de-cerimônia, mas ficou muito fácil ter esse título", explicou. "Por isso preferi ser chamado de MV, porque quero mostrar a verdade do morador da Cidade de Deus, dos negros e excluídos desta cidade."
O convite para o Free Jazz surgiu no mês passado, após uma apresentação na MTV, ao lado dos Racionais MC. Segundo o empresário de MV Bill, Celso Atahyde, o show do festival ainda não está pronto. "Nossa intenção é mostrar as raízes africanas do rap e do hip-hop e, por isso, vamos fazer uma produção mais incrementada", contou o empresário, que trabalha também com os Racionais MC. "Todos pensam que o rap é americano, mas suas raízes estão na áfrica e quem descobriu essa música foi um jamaicano chamado Kool Herk."

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