Rappa, música e filosofia
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sexta-feira, 13 de junho de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
DivulgaçãoO Rappa: o grupo tem sua praia no palco e ganha a empatia do público Dois meses, não mais que isso, foram suficientes para mudar a vida dos integrantes do grupo O Rappa. Falcão (vocal e guitarra), Marcelo Yuka (bateria), Xandão (guitarra e backing vocal), Marcelo Lobato (teclados, sampler e backing vocal) e Lauro Faria (baixo e backing vocal) enfrentavam a dura vida sem dinheiro, no Rio de Janeiro, quando viram tudo acontecer quase por acaso. O disco Rappa-Mundi, que eles gravaram pela WEA, caiu como uma luva no gosto da moçada.
Tinha gente da banda com dificuldade para tomar ônibus. Agora estamos comprando carro, contou Marcelo Yuka em entrevista para a Folha2. Esses rapazes em ascenção econômica e musical são a atração desta noite no Chocolate Chic, em Curitiba, depois de terem circulado na semana por Maringá e Joinville (SC).
Rappa-Mundi é o segundo disco de O Rappa. O primeiro passou despercebido: os programadores das rádios ignoraram solenemente o CD e os shows eram escassos. A experiência não foi das melhores, os músicos estavam pensando num segundo lançamento quando o poeta e letrista Wally Salomão chegou com Vapor Barato, que ele compôs com Jards Macalé, e gravada por Gal Costa em 1971, na época tropicalista.
No começo relutei, confessa Yuka. Wally e Bernardo Vilhena, outro poeta, tiveram uma conversa séria com ele, que ouviu a música com atenção, ficou literalmente encantado e foi buscar a letra num velho jornal. No dia seguinte fizemos o arranjo. Começava aí a trajetória para o alto e Vapor Barato transformou-se numa espécie de símbolo da amizade.
Outros nomes reluzentes vieram a somar-se ao trabalho, como o produtor Liminha, que empresta seu talento para os grandes talentos nacionais. Duríssimos, os rapazes do Rappa nem sonhavam em contar com o trabalho dele. Magicamente aconteceu. Como aconteceram as participações de Wellington Soares na percussão e dos Djs Zé Gonzales, Rodrigues e Paulo Futura. Este é um disco de amigos, explica Yuka.
Coisa forteO grupo tem sua praia no palco. Estar num tablado é o ideal para os músicos. Bom para eles é que há reciprocidade; o público devolve com a mesma intensidade.
O Rappa, que há quatro anos mantém a filosofia musical e de vida muito evidente, desenvolve um trabalho social junto às comunidades carentes do Rio de Janeiro. Justamente eles, que lutavam com a água no pescoço, mantiveram o idealismo de trabalhar com crianças. O que eles cantam é o que fazem.
Os frutos dessa semeadura começam a aparecer. Paulinho, um garoto de 16 anos da favela de Vigário Geral, hoje toca com o Rappa. Nossa intenção é mostrar a essas crianças que o universo que elas vêm pela televisão, não é assim tão distante. Tem que sonhar com aquilo, batalhar até chegar lá.
O que não pode é cair nas drogas, virar traficante, ser caçado nos morros. Um dos meninos que estava na mira dos contraventores - vivia perambulando pelas ruas de Vigário Geral - entrou num dos cursos do Rappa. Descobriu-se com o contrabaixo e hoje é um dos melhores alunos. O sucesso do grupo, porém, tem impedido que se dediquem com maior afinco ao projeto. Agora estamos trabalhando com eles de dois em dois meses, e não vamos parar, assegura Yuka.


