Luiz Claudio Oliveira
A banda Pavilhão 9 está lançando o disco ‘‘Se Deus Vier, que Venha Armado’’, pelo selo Paradoxx, em que, pela segunda vez, coloca uma banda tocando junto com as tradicionais sonoridades do rap. O resultado é um som ainda mais pesado para emoldurar as letras diretas e angustiantes do cotidiano abandonado da periferia das grandes cidades.
A união entre banda e a tradicional base eletrônica do rap se deu dentro do Pavilhão 9 pela primeira vez há cerca de dois anos para ‘‘Cadeia’’, disco anterior da banda. Agora, as coisas estão se encaixando melhor e existe o peso necessário para emoldurar frases como ‘‘Um garoto no esgoto. Dá tristeza só de assistir’’ (de ‘‘Vai Explodir’’); ou ‘‘Chega aí maluco. Venha pra cá, conferir. Então você vai ver chacinas frequentes onde morrem muitos inocentes’’ (de ‘‘Execução Sumária’’).
DivulgaçãoFoto mostra a filmagem do clipe ‘‘Vai Explodir’’, na favela Vila Joaniza, de São Paulo, com os ‘‘low riders’’, carros que têm suspensão e amortecedores especiais para saltar no asfaltoComo diz o jornalista Mylton Severiano da Silva, que faz o texto de apresentação da banda: ‘‘Esses garotos da nação hip hop são correspondentes de guerra.’’ O nosso Kosovo, a nossa guerra de todo dia é disputada nas periferias das grandes cidades. ‘‘...Terra de ninguém. Eles atiram sem dó. Muito moleque menor viciado em pó. Tem desemprego. Os bares estão cheios. Kbçs vão rolando e eu aqui no meio. Terra de ninguém...’’, diz a letra de ‘‘Terra de Ninguém’’.
O disco é porrada em cima de porrada, a começar pelo título, tirado, segundo explicação da banda, de um grafite citado em um número da revista ‘‘Caros Amigos’’ dedicado ao movimento hip hop. O trabalho é dedicado ‘‘às vítimas da violência social e da negligência policial’’.
Sobre o som, o guitarrista Blindado, que foi integrado à banda com o CD Cadeia, de 1997, afirma que depois de dois anos e meio toda a produção está mais coesa. ‘‘Este é o primeiro disco do Pavilhão que repete a mesma formação’’, explica.
‘‘Se Deus...’’ foi mixado no Scream Studios, em Los Angeles por Bill Kennedy, que já trabalhou antes com Deep Purple, Nine Inch Nails e Prong. ‘‘Queríamos buscar qualidade e lá existem melhores equipamentos. O Bill já havia trabalhado com o Carlo Bartolini (que produziu Sepultura e Ira!, entre outros) e nós já conhecíamos o trabalho dele com o Nine, o Nirvana e o Rage Against.’’
A idéia de se adaptar uma banda às tradicionais bases eletrônicas do rap surgiu quando o vocalista e letrista Ro$$i assistiu a um show do Sepultura e sentiu como seria bom ter um peso daqueles no palco. Chegou à conclusão que somente com uma banda conseguiria isso.
Segundo Blindado, não há desentendimentos com a turma mais conservadora. ‘‘O Pavilhão 9 sempre inovou, mesmo com os samples, e sempre esteve envolvido com o rock. No começo já sampleava Pink Floyd, trabalharam com o Edu K e a banda De Falla e sempre se apresentaram em várias casas de shows, não apenas naquelas de raiz do rap.’’ Lembra ainda que em shows e discos fizeram parcerias com Max Cavallera e com o Sepultura, entre outras.
Para ele, só não foi adotada essa formação antes porque não houve oportunidade. ‘‘A periferia, não tem nem como ouvir um show com banda, quanto mais comprar instrumentos. Mas nós prometemos levar um show completo para a periferia e a moçada mais nova já vai crescendo ouvindo essa mistura.’’
O autor das letras, que são verdadeiras crônicas da vida nos bairros mais pobres, é Ro$$i, fundador da banda. Ele lembra sempre que o nome Pavilhão 9 surgiu bem antes da chacina do Carandiru.
O vocalista afirma que não pretende ficar apenas no mesmo tema da falta de segurança na periferia. ‘‘A faixa título já fala da violência mundial e devo falar também do lado bom da periferia, do movimento hip hop e dos trabalhadores que se encontram nos fins de semana’’, diz.
Isso não quer dizer que ele vá abandonar o tema da violência. ‘‘Para mim, a violência continua do mesmo jeito. Acontece há um bom tempo. Queremos um País mais humano. Nossa luta é contra a violência banal. A violência policial na periferia está pior que antes.’’ Para Ro$$i, ‘‘a polícia tem que proteger e conquistar a confiança das pessoas, as rondas têm que ser preventivas e não repressivas’’.
Quanto ao movimento rap e hip hop, ele está confiante no aumento da audiência e de adeptos. ‘‘O rap está crescendo cada vez mais. Vamos superar essas bundas como já superamos a lambada. Hoje, nas pistas, já se toca mais o rap que o dance.’’
Por outro lado, Blindado reclama que as rádios boicotam o som da banda. ‘‘Não tem sido fácil o Pavilhão chegar às rádios. Aqui em São Paulo, existe agora a 105 FM, que é a rádio rap. É a primeira que está dando espaço ao rap, espero qua apareçam outras no País inteiro.’’
Há poucos dias, a banda foi notícia, mas menos pelo bom som que fazem do que pelo ineditismo das imagens dos low riders que foram usados para a gravação do videoclipe da música ‘‘Vai Explodir’’. Os low riders são aqueles carros que literalmente pulam no asfalto depois de receber suspensão e amortecedores especiais.
O clipe foi gravado na Favela da Vila Joaniza, em São Paulo, local onde moram alguns dos integrantes da banda. ‘‘Só existem quatro desses carros no Brasil e o dono deles é amigo nosso. Têm tudo a ver com a cultura hip hop. Os MCs usam esses carros e decidimos levá-los à periferia para gravar o clipe junto com o Black Alien (ex-Planet Hemp).’’ Ele explica que gostou da experiência. ‘‘Foi legal porque a periferia só está habituada a ver crimes e violência e aquele foi um dia diferente, de festa, de som e de arte hip hop.’’ O guitarrista Blindado completa: ‘‘Rap é diversão consciente com informação.’’
A banda é formada por Ro$$i (voz), Blindado (guitarra), DJ Branco (pick ups), Doze (voz), Marinho (baixo), Ortega (guitarra) e Thunder (bateria).
O disco ‘‘Se Deus Vier que Venha Armado’’ pode ser encontrado em lojas de todo o País. Contatos para shows com o Pavilhão 9 podem ser feitos pelo telefone (011) 7295-9099. Quem quiser também pode acessar a página da banda na Internet pelo endereço da Bocada Cibernética, que é: www.dezoito.com/p9.

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