O DJ KL Jay, o homem das pick-ups dos Racionais MC’s, está lançando um CD duplo com participação de Mano Brown, Xis, MV Bill e outros artistas de ponta
O novo e aguardado disco dos Racionais MC’s só sai no final do ano. Mas seus seguidores já podem caçar nas lojas o CD duplo ‘‘KL Jay na Batida – Equilíbrio vol.3’’, que traz 21 faixas produzidas pelo dono das pick-ups do grupo.
O disco chega ao público pelo selo 4P, fundado por KL Jay em parceria com o rapper Xis, o autor de ‘‘Us Mano e as Mina’’. A distribuição é da Trama que, num lance de camaradagem, respeitou os baixos custos de produção negociando o preço final para apenas R$ 25,00.
O DJ criou as bases para algums dos nomes mais importantes do rap nacional como MV Bill, Rappin Hood, Xis, Dina Di e seus companheiros Mano Brown e Ice Blue. Além de soltar a voz em quatro faixas, ele dialoga aqui e ali com um e outro enquanto manipula as batidas, scratches, samples e texturas.
No disco 1, Xis sobressai com vocalises r&b ao fundo cantando um futuro digno para as crianças (‘‘Meu sonho enfim / é ver você 100% / andando de cabeça erguida / Ter o maior respeito / longe das polícia / longe dos pilantra / da crocodilagem / dos que não adianta’’).
MV Bill e Dina Di também se destacam com discursos ferozes sobre o apartheid social. KL Jay abre o disco 2 puxando as orelhas dos impostores que circulam pelo gênero. ‘‘Você é no dia-a-dia / aquilo que você fala nas letras? / Você é em casa / o que você fala nas letras?’’ – cutuca em ‘‘Ouve A풒. Em ‘‘Valeu!’’ homenageia e cita vários DJs da periferia paulistana com menção inclusive ao celebrado Marky, o mago do drum’n’bass.
É Mano Brown, porém, quem arrebata o ouvinte fechando o disco com ‘‘Privilégio 2 (O Tempo é Rei). Na faixa, de quase 15 minutos, a voz principal dos Racionais MC’s passa uma mensagem sobre a miséria, a criminalidade e a globalização. Num trecho, diz: ‘‘Periferia não tem super-herói / Super-herói da periferia anda como? / De RR, Golf GTI / Tem umas quadradas / Quando tem fuzil, então, ave maria / Vira personalidade / É o valor / Esses são os valores / Como é que você faz pra viver /num mundo assim? / Você olha pra um lado / Vê os bacanas pagando / Olha pra outro / Os hermanos no crime / Mas eu tenho que continuar andando’’.
Em outra passagem, constata: ‘‘O mundo que nem esse / o nosso / num país que nem o nosso / onde você vale o que tem (a frase é antiga) / Os carros bonitos / roupa bonita / Agora Globalização, Internet e tal / Estados Unidos / Ligou pra lá / Um minuto te atenderam do outro lado / Tudo pertinho / E a vida dos manos continu do mesmo jeito / Como se não tivesse nada disso / Tá ligado / Internet, nada, não mudou nada / Isso não fez efeito pros caras / Nem pra mim’’.
Assim, transcrito para o papel de jornal, perde-se toda a contundência de seu recado. Mas no disco, com o apoio de um arranjo sombrio, Mano Brown soa como o último dos profetas.
Você faz parte do maior grupo brasileiro de rap, que aliás está gravando novo disco. O que motivou você a encarar um trabalho-paralelo e produzir esse CD duplo?
Foi o fato de eu não produzir no Racionais, porque ali o som e as letras ficam por conta do Mano Brown e do Edi Rock. Por isso, eu decidi fazer um trabalho pessoal para mostrar o meu som, o meu momento, as minhas idéias. Chamei o pessoal que se encaixava no projeto e consegui fazer músicas no estilo de cada um. Teve também a idéia de lançar um disco de rap de qualidade, porque 60% do que está saindo no mercado é de gente sem talento, que não sabe rimar e não tem suingue nem balanço. É uma coisa inevitável do mercado. As gravadoras pegam caras sem talento e pagam jabá para as rádios tocarem.
O que diferencia o seu som daquele feito pelos Racionais?
O som dos Racionais é mais pesado, mais sério, sinistro, fechadão. Eu sou DJ, ouço mais coisas, toco em casas noturnas, rádios. O meu som é mais pra cima, é som de baile. Quis mostrar no disco o que eu toco normalmente.
Foi fácil escolher os convidados para o disco?
Eu quis colocar a linha de frente, os caras que estão no topo do rap, os que o representaram no passado e outros que não têm acesso à mídia.
Como foi o processo de criação das músicas?
Eu parti do estilo de cada um para fazer o som. Depois chamei os caras e mostrei as bases. Todos aprovaram já na primeira prova, com exceção do MV Bill e do SNJ, que tive de refazer.
Por que você intitulou o disco de volume 3?
Eu e o DJ Fresh tocamos durante dois anos na casa Soweto. Juntos, produzimos duas fitinhas que vendíamos em bailes e que chamamos de volume 1 e volume 2. Daí, resolvi intitular esse trabalho de volume 3. Outra razão é que eu tinha mania de ler revistas de trás pra frente. No ano que vem, pretendo lançar o volume 2 com outros participantes e repetir apenas alguns nomes. Mas além disso, teve também uma jogada de marketing.
Você planeja fazer shows de lançamento com a participação de todo mundo?
Vou fazer um show em São Paulo no final de agosto. E estou acertando shows para setembro em Curitiba, Porto Alegre e outras cidade mais ou menos próximas para não encarecer a viagem. Mas estou pensando em como vou fazer os shows sem criar mal-estar no pessoal, pois não vai dar para levar todo mundo para o palco.
E em que pé está o disco novo dos Racionais?
As letras e o instrumental estão prontos. Falta colocar a voz e mixar. Até o final do ano, ele sai para as lojas.

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