Rap em conexão cultural
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sábado, 06 de agosto de 2016
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 

Logo nos primeiros minutos de conversa já é possível perceber a grande sintonia entre o londrinense Tiago Sidney dos Santos e o haitiano Louis Kenson Janvier. Enquanto um brinca com o sotaque gringo, o outro dá um tapinha na aba do boné, como brincam os irmãos disputando quem ganha na zoação. Numa das ruas da favela Marieta (região Norte), esperam a entrevista sobre música e o lançamento do novo clipe. Cantarolam trechos para descontrair enquanto vizinhos passam e cumprimentam com intimidade. E o papo começa assim, falando de trabalho e projetos. Em pouquíssimo tempo, porém, ingressa num universo de fragilidades, confissões, sonhos e conquistas.
Tiago e Louis, Rappers Mano Tiago e Topsun Mond Lan, respectivamente, se conhecem há pouco mais de três meses, mas a parceria inicial mostra que as afinidades e semelhanças vão muito além das atividades musicais. Os dois acabam de lançar o clipe "Rap Puro", em que é possível ver a fusão entre as culturas brasileira e haitiana. A música fala dessa conexão entre eles, da amizade que surgiu, da realidade na favela, um pouco da vida, com letra que transita pelo português, francês, crioulo e uma pitada de inglês. Apesar de acompanhada de legenda, eles garantem que o rap é universal: "não é preciso ser fluente em nenhuma língua, basta apenas sentir o ritmo, a batida, que é a mesma em qualquer país", diz Topsun, com um português de deixar em dúvida que algum dia não tenha falado palavra alguma.
A idade e situação em que os dois começaram a ouvir rap foi praticamente a mesma: aos 13 anos, por influência dos amigos da comunidade. Não demorou para que escrevessem os primeiros refrões. Um com ajuda de um integrante da banda, aprimorou a escrita. O outro, por incentivo de um professor da irmã, escrevia despretensiosamente. Os temas? Assuntos que levassem a alguma reflexão, que falassem da vida e das situações que presenciavam. "Até hoje eu falo do que eu vejo ao meu redor, do que acontece no meu dia a dia. Nem sempre é coisa boa, mas é a realidade que eu vivo. Não vou falar do que não sei", confessa Tiago. Topsun, por sua vez, começou exaltando as virtudes humanas. Devorador de literatura, poesias e ficção, tem nos livros sua inspiração. "Também aprendi sozinho a fazer meus beats, porque só assim as músicas ficavam do jeito que eu queria."
Mano Tiago é egresso do grupo tradicional de rap da cidade, Família IML, e hoje, está à frente do grupo Malokos, seu novo projeto musical. Entre um som e outro, seu ganha-pão vem mesmo é do bar improvisado na favela, onde mora com a esposa e a filha de nove meses. Topsun era produtor musical e também ajudava a mãe no bar da família na comunidade de Carrefour, em Porto Príncipe, até acontecer o terremoto, em 2010, e emigrar para o Brasil em busca de trabalho. Já passou por empresas de construção civil e, agora, trabalha como segurança. Conheceram-se na "Batalha na Concha", evento de rap da cidade. "Nos demos bem logo de cara", revela Tiago. Neste mesmo dia tiveram a certeza de que queriam gravar juntos.
A empatia imediata só evidenciou que a conexão ia além. Coincidências ou não da vida, ambos tiveram momentos de dificuldades extremas. Enquanto Topsun, de uma hora para outra não tinha perspectivas por causa do abalo que assolou seu país, o terremoto de Tiago veio com as prisões por causa de envolvimento com tráfico e roubo. Cada um precisava reconstruir sua vida. A luz no fim do túnel foi a música, que, nos piores momentos, dava esperança de dias melhores. E vieram; estão vindo. Tiago acertou, definitivamente, suas pendências com a justiça e diz que tudo não passava de uma ilusão. "A música era um hobby naquela época enquanto ganhava dinheiro com o crime. Nada disso valeu ou vale a pena. Ainda bem que o jogo mudou. Não troco minha paz e dignidade de hoje por nada."
Já Topsun agarrou a oportunidade do novo país, onde, além de trabalhar, começou a estudar curso superior de Engenharia Civil com incentivo de programas do Governo e sonha alto. "Aos poucos, estou construindo uma nova vida aqui. Trabalho muito mesmo. Mas está valendo a pena. Já consegui pagar meu teclado e comprar um computador para produzir algumas músicas, até mesmo diferentes do rap", diz ele, referindo-se ao pequeno estúdio que montou em sua casa. Tiago também fez o mesmo e já está ampliando seu estúdio onde grava suas músicas e de outros artistas da cidade. A música "Rap Puro", inclusive, foi gravada e mixada nos dois estúdios. "Um dia ainda vou colocar um ar condicionado aqui. Aí sim vai ficar bom", conta o rapaz.

E, hoje, se ambos comemoram o encontro e os projetos a colocar em prática, sabem que ainda há um caminho árduo pela frente. "O pessoal vê a gente com roupa legal no vídeo e acha que estamos ricos. Que nada; temos que dar duro todos os dias para ganhar dinheiro e pagar as contas. Mas é assim mesmo", revela Tiago. O passado difícil, no entanto, dá vez à sede de um futuro diferente. Motivado pela ideia de aprender outra língua e outras métricas rítmicas, não economiza elogios ao amigo. "Ele conhece uns beats diferentes que são demais." Topsun retribui e diz que admira a rapidez do rapper, que escreve letras em poucos minutos. "E esse cara ainda canta muito." E assim seguem, no encantamento e vontade de quem está começando, ou recomeçando.
Confira o clipe "Rap Puro"


