Rap com batom
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de março de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Por enquanto, não se pode falar de uma invasão feminina no movimento hip hop da região. Mas dá para afirmar de boca cheia que as meninas já deram o primeiro passo para ocupar um espaço próprio, no palco, ao lado dos rapazes. Quem passou pelo Calçadão de Londrina, na manhã do último sábado, pode ver o show de Simone Matias Meireles (17 anos), Heloísa Almeida Campos (20) e Joyce Ellen Almeida de Campos (16).
Elas se apresentaram como artistas convidadas da 10ª Semana Municipal da Mulher. Formaram o grupo Negras de Stilo há oito meses e já começam a atrair a atenção tanto de quem atua no universo do rap quanto do público em geral. As três moram em Rolândia. Heloísa e Joyce são irmãs. No início contavam com mais duas integrantes, que acabaram deixando o grupo depois de algumas apresentações.
Pioneiras no gênero, na região, as Negras de Stilo tiveram apoio total dos amigos rappers. Elas lembram que a primeira música que cantaram foi um presente dos manos Brejão e Negão. Em seguida, passaram elas mesmas a compor as rimas em cima das bases eletrônicas. Nosso objetivo é mostrar que a mulher não precisa ficar só na beira do fogão, que ela também pode ter consciência social e mandar um som. Queremos valorizar a mulher, porque hoje em dia a imagem que a televisão passa é de que a mulher brasileira é uma prostituta. A toda hora, aparece uma tirando a roupa e rebolando para levantar a audiência do canal criticam.
Nas letras, o grupo aborda a realidade social com ênfase na violência policial nas favelas, o cotidiano das mulheres da periferia e a crítica aos governantes de plantão. A apresentação no Calçadão de Londrina foi a primeira realizada fora de Rolândia. Já receberam convites para cantar em Maringá e Ponta Grossa, mas não puderam se deslocar por falta de dinheiro. Graças ao incentivo dos rapazes, elas não se intimidam em subir ao palco. Os caras ficam de olho. Por isso, temos que ter firmeza e atitude dizem.
Elas não se conformam, porém, com quem confunde o movimento do qual são participantes ativas com marginalidade e violência. Queixam-se do olhar preconceituoso dos que estão do lado de fora. Já fomos em vários eventos de rap e nunca vimos uma briga salientam. Hip hop é cultura, consciência, humildade e respeito. Quem entra para o movimento, tem a vida mudada. Passa a ter idéias positivas, a olhar a vida de outro jeito.
As gurias estão empolgadas. Sonham em gravar um CD para incentivar a formação de outros grupos femininos, a exemplo do que vem ocorrendo nas principais capitais do país. Estão ansiosas para assistir ao show do grupo porto-alegrense La Bela Máfia, também integrada por garotas, que chega a Londrina no final do mês. As rimas conquistaram as minas.
Trechos de música
Negras de Stilo
...Preste atenção / não é o que parece / não discrimino seu estilo / muito menos o seu som / mas aqui não é pagode nem som pra rebolar / aqui é Hip Hop / pro ladrão conscientizar / com meus próprios olhos já vi mano desandar / quem entra nessa guerra é melhor se prepará / aqui é muita treta / não foi feito pro abafa / é feito pra quem curte / se quiser vem praticar / nem pense mais em treta / esqueça o 57 e também o 121 / entre pro Hip Hop / e não será só mais um...
Revolução feminina
Ei mano / me escute agora /essa idéia que lugar de mulher é na beira do fogão / tá por fora / pois eu já cansei dessa ladainha / que o nosso lugar só é na cama ou na cozinha / por isso eu peço / pare e me escute / seja uma mina decente / e com muita atitude / mas se você é daquela que curte uma tela / preste atenção / pare de ver / essa porra de novela / pois a televisão é pura ilusão / e não te ajuda no seu dia-a-dia / enquanto você só gasta energia / então pare e pense e depois me responda / se você é uma mina de responsa...


