Ranulfo Pedreiro
ReproduçãoEra um colégio religioso, desses não muito moderninhos, mas que permitia estudantes de ambos os sexos. Entre eles, se destacava Helinho, tipo meio quietão, que se fazia de desentendido para ocultar uma inteligência especializada em pequenas pegadinhas.
Ao cumprimentar alguém, por exemplo, convidava:
- Toca aqui.
E, quando a pessoa se dirigia para completar o aperto de mão, ele subitamente passava a tocar um violão imaginário, finalizando:
- Deixa que eu toco sozinho.
Desde a tradicional Oi... tenta e um, oitenta e dois... até pegadinhas mais elaboradas, Helinho sempre dava um jeito de satirizar alguém - nem sempre com sucesso. Entre as brincadeiras, tinha uma queda por visitar estrategicamente o sanitário feminino. Entrava como quem não quer nada e, quando os gritos ecoavam, disfarçava:
- É que os banheiros são muito parecidos, né mano.
Seus prazeres mais profundos incluíam irritar a irmã porque a garota guardava um CD autografado do Pe. Zezinho. Helinho preferia Sepultura. O garoto sumiu com o bichinho eletrônico - destes que parecem um chaveiro e estão proibidos em algumas escolas - da garota e mudou todos os hábitos alimentares do brinquedo. Não se sabe como, mas o bicho ganhou vários quilos, tornando-se parecido com o Raul Gil. Só que com presas de vampiro.
A confusão maior começou no dia em que Helinho foi pego em cima do telhado da escola tentando cortar os fios das caixas-de-som. Tumulto formado, o rapaz se justificou:
- É um protesto contra este sinal mala, né mano.
A diretoria se reuniu e chegou à conclusão que o rapaz não estava totalmente errado. Há anos o sinal de entrada - aquela sirene estridente - havia sido trocado por uma música água-com-açúcar, dessas de trilha sonora de novela mexicana. A troca só encontrou oposição do Salazar, um faz-tudo que trabalhava na instituição desde que Matusalém ainda fazia a barba.
- Vai dar pepino, avisou na época.
E deu. O protesto do Helinho ganhou adeptos de peso, como as faxineiras, que exigiam que tocassem Cascatinha e Inhana durante a entrada e Inezita Barroso na saída. As meninas da ginástica torciam pela trilha sonora de Carruagens de Fogo, o pessoal do funk preferia Claudinho & Buchecha, as garotas da 7ª B queriam Shakira, os roqueiros amigos do Beto brigavam por Polícia, dos Titãs, e a professora de canto torcia por Mozart. Reforçada pelo corpo docente, a lista incluía também grupos considerados verdadeiras desenterradas, como Abba e Harmony Cats, compositores como John Denver, intérpretes como Lady Zu, a dupla Don e Ravel e até Gretchen - além de Cafuné, composição do Tide, da 7ª B, defendida pelo autor com unhas e dentes. Enfim, havia música para todos os gostos e desgostos.
- Eu curto Pe. Zezinho, né manos - dizia Helinho - com a maior cara-de-pau, é preciso ressaltar - para espanto de todos. Menos do Salazar, que olhava o garoto com o canto dos olhos.
- Melhor comprar uma sirene estridente que tem treta nesta história.
Mas ninguém deu bola. A diretora, que acreditava numa quantidade de CDs religiosos suficiente para descartar outro tipo de música, topou a idéia.
- Amanhã cada um traz o disco de sua preferência que eu escolho um para servir de sinal.
No outro dia, a diretora se viu, como se diz, numa saia justa. Entre centenas de CDs apresentados, não havia nenhum religioso. Até que o Helinho chegou, meio atrasado, empunhando um álbum autografado do Pe. Zezinho. Aliviada, a educadora aceitou a sugestão e, sem pestanejar, colocou o CD no aparelho e pressionou o play.
Ninguém entendeu quando Roots, Bloody Roots, do Sepultura, explodiu nas caixas-de-som. A diretora desmaiou antes que conseguisse desligar o aparelho. As crianças do pré-primário desataram a chorar e o Salazar, com medo de assombração, buscou abrigo embaixo de uma carteira. Dona Nenê, que apesar do apelido era uma faxineira já idosa, desatou a dançar, cercada pelos cabeludos da 8ª C, enquanto a professora de Português ligava para o Pe. Inácio, da Igreja mais próxima, gritando: Emergência, emergência.
A 5ª série fazia guerra de cadernos enquanto a irmã do Helinho perguntava: Quem pegou a caixinha do meu CD do Pe. Zezinho?. Em todos os cantos da escola foi aquele rebu. Quando os bombeiros chegaram - eles só apareceram porque o Salazar criou coragem e destruiu o aparelho de som com o escovão, aos gritos de sossega coisa-ruim, e em seguida ligou clamando por socorro - , até as traves da quadra de futebol estavam de ponta-cabeça.
Durante a suspensão de uma semana - acompanhada de ameaças de expulsão -, o Helinho pensou para chuchu. Estudava um jeito de colocar um CD do Sepultura na sirene estridente recém-instalada pelo Salazar, que andava se vangloriando pelo colégio:
- Eu falei que ia dar pepino.





