Arquivo FolhaNão se sabe exatamente como aconteceu. O pai jura que começou quando o filho passou a acreditar que guitarrista arranja mulher fácil, fácil. Desde então o Beto enfiou na cabeça que iria montar uma banda de rock. E grudou na orelha do pai com a história da guitarra. Era Gibson para lá, Fender para cá e até as nacionais ele admirava. O pai do Beto respondia com murmúrios incompreensíveis:
- Humpsfl.
Mas o blá-blá-blá venceu a paciência do paizão e agora o Beto está com dois cabeludos na garagem para o primeiro ensaio de sua banda. Da sala, o pai sustenta opinião:
- Hmmsflp.
O pior é que, no delírio de ver garotas do naipe daquelas de ‘‘Malhação’’ correndo atrás do grupo, o Beto, digamos, se esqueceu que tocar guitarra não é tarefa das mais fáceis - embora muitos conjuntos insistam em provar o contrário. O resultado é que o garoto só sabe os três acordes de ‘‘Polícia’’, dos Titãs, aprendidos com o primo em um acampamento. Esta foi, portanto, a única música do ensaio.
- Este som é demais, comenta Beto, enquanto o baterista dá um intervalo para arrumar o pedal do bumbão - os garotos ainda não sabem que, em banda de rock, quem impressiona é o guitarrista, mas quem age com sucesso pelos bastidores é sempre o baterista.
Pedal arrumado, recomeça o ensaio. A bateria desafinada castiga o quatro por quatro enquanto os acordes de ‘‘Polícia’’ correm soltos. Estático, Linguiça, o baixista, observa.
- E aí, vai ficar só olhando?
- É que esse negócio parece mais fácil no clipe do Oasis...
O Linguiça optou pelo baixo mais por comodidade que talento. O rapaz acreditava que - por apresentar apenas quatro cordas - o instrumento seria fácil de manusear. Como o baixo é parecido com a guitarra, ele também espera arrastar futuras fãs - pelo menos uma - para um diálogo mais íntimo.
- Você segura no Lá, desse jeito ó.
O baixista sorriu para dentro: sua teoria está correta. ‘‘Basta tocar o Lá e distribuir sorrisos para a platéia feminina’’, comemora em silêncio. A barulheira recomeça, reforçada pelo Lá do baixo, durando o suficiente para o Beto perceber que a banda ainda não tem um vocalista. E como o instrumental, confessemos, não é dos melhores, o vocal tem que ser consistente.
- Cantar é lance de cabeça, tem que ser alguém que pense como a gente.
- Que diga o que a gente quer dizer.
- E o que a gente quer dizer?
- Que tem linguiça embaixo do feijão.
- Ei, que que tem eu aí?
- Eu quero dizer que tem um monte de coisa errada, sua anta. Tipo uns políticos aí que roubam, essa coisa dos pobres também, né, e até os negócio de terra que tá dando o maior rolo, entende?
A discussão seguiria esse nível se o Beto não interrompesse para dizer que o importante é o carisma do grupo em apresentações ao vivo.
- Solar que nem um louco, pular bastante e fazer careta. Elas se amarram.
- É, que nem o Planet Hemp.
- Igual aos Raimundos.
Afinal decidiram que o Tatu cantaria. Exibindo tatuagens e piercings até nos lugares mais recônditos, Tatu é o tipo do cara que agradaria em videoclipe. E tem todos os discos dos Raimundos e do Planet Hemp. Além do mais, ao ouvir Offspring, ele pula e urra como um doido:
- Bananaaaaa! Bananaaaaa!
Concluíram que o Tatu seria fundamental para a banda, e o informariam assim que ele chegasse do treino de boxe tailandês. Na sala, o pai do Beto aproveita o silêncio proporcionado pela discussão. Mas a garagem, intrépida, não demora a emitir sons estridentes incríveis, como diria o Itamar Assumpção. O pai chega a formar uma concha com a mão em torno da orelha, franzindo as sobrancelhas, para ver se entende alguma coisa. Impossível.
- Hmpflsd!
São os acordes de ‘‘Polícia’’, dos Titãs.

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