RAÍZES PARA ENFRENTAR A REALIDADE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de novembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
E a cultura popular brasileira, por onde anda? As festas do bumba-meu-boi, as lendas da mula sem cabeça, as histórias do homem que vendeu sua alma para o diabo? Estaríamos distantes de nossas raízes assim como o filho, na fase prematura, foge da mãe que o concebeu? Talvez distantes, mas nunca fechados. Essa é a constatação possível ao acompanhar uma oficina conduzida pelo músico e compositor maranhense Tião Carvalho.
Ele é um autêntico mestre da cultura popular brasileira. Esteve em Londrina na última semana para conduzir uma oficina de cultura popular no Centro Comunitário Irmão Caçula, no jardim União da Vitória, uma das regiões mais pobres da cidade.
Convidado pelo grupo Retalho de Cultura Popular, Tião mostrou brincadeiras típicas de uma cultura que parece se preservar com mais afinco nas regiões norte e nordeste do País. Tião discorda: ''Depende de que nordeste você está falando. Há nordestes e nordestes...''.
Segundo o percussionista Fernando Góes, integrante do grupo Retalho, a maior qualidade que pode se atribuir à cultura popular é o fato de ela ser ''uma coisa que se sente, não que se pensa''. O grupo foi formado nesse semestre, influenciado pelas recentes apresentações que Tião fizera em Londrina. A primeira ocorreu durante o 7º Simpósio Permanente de Educação Musical, em outubro de 2000. A última foi mais recente, integrando a série Concertos Matinais, em abril deste ano.
Dessa vez Tião veio com única companhia, a bailarina Patrícia Ferraz. Ambos moram em São Paulo, onde o músico ensina os segredos da cultura popular há mais de 20 anos. Atualmente ele mantém uma oficina no morro do Querosene, no Butantã, similar a que realizou em Londrina.
Para Tião, ''tudo é música popular'', e o êxito desse gênero, no caso das oficinas para populações carentes, é ocupar a mente dos garotos. ''É um trabalho social que, através da música, preenche um vazio na vida da criança, estimulando o raciocínio''. A aceitação, segundo o músico, é maravilhosa, o que pôde ser constatado na tarde de sexta-feira, quando o maranhense e o grupo Retalho apresentaram brincadeiras populares a alunos do Colégio Seta.
A brincadeira do boi, como se popularizou o ''bumba-meu-boi'', é uma das tradições da cultura popular que Tião leva a esses bairros. Traz dança, teatro, comida, artesanato e muita música. Uma espécie de símbolo da coletividade, compara Góes. Uma integração possível apenas pela arte, explica Tião.
Apesar de um interesse recente por essas tradições nordestinas (como a capoeira), o maranhense critica uma certa formalização do que por natureza é informal: ''Para fazer capoeira hoje é preciso estudar educação física. Não sei... mas alguma coisa está errada''.
O objetivo dessas oficinas tem sido alcançado, diz o músico. ''Temos de desenvolver na comunidade essa vontade de integração. Mesmo que não tenha muito espaço na mídia, o povo acaba ouvindo falar da oficina e quando chega lá acaba gostando. E o melhor é que essas oficinas não são só para crianças, mas para todas as idades''. Em Londrina, a oficina teve apoio da Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Rede da Cidadania, um aglomerado de projetos que pretende descentralizar a produção e assimilação de cultura na cidade. O Grupo Retalho dará continuidade à oficina de cultura popular todas as semanas, no União da Vitória.
Enquanto Tião não volta a Londrina, ele vai tocando outros projetos. Em julho último, coordenou um simpósio de capoeira em Berlim, Alemanha. Criado em uma família de músicos, ele foi se aproximando dos instrumentos desde pequeno. Preferiu a sonoridade percussiva, mas também não ignorou a possibilidade de compor, sendo letrista lembrado por intérpretes os mais variados. Sua composição mais famosa, ''Nós'', foi gravada por Cássia Eller e Ná Ozetti. Ele irá regravá-la e inclui-la em seu próximo trabalho, ''Quando Dorme Alcântara'', que deve ser lançado no próximo ano, depois do carnaval, mas ainda não tem gravadora confirmada. Tião também antecipa que, além de suas composições, o CD irá trazer leituras sobre a obra de João do Valle (um de seus autores prediletos), Josia Sobrinho, Ronaldo Motta e Ana Maria Carvalho. Ou seja, mais um pouco daquela cultura popular de que Tião já é íntimo há tempos.


