Raivosos e engajados
O grupo Racionais MC’s é a atração musical de hoje do Festival Internacional de Londrina, no Cabaré
ReproduçãoRacionais MC’s: rap hostil e indócilNelson Sato
Quem, afinal de contas, vai ao show dos Racionais MC’s? Qual vai ser a platéia de hoje à noite, no Cabaré, durante a apresentação do grupo brasileiro mais famoso de rap? Você tem medo da garotada da periferia de Londrina?
As perguntas, que parecem tolas, revelam-se pertinentes quando se recorda o minguado público presente ao show de Mano Brown e sua turma no ano passado na cidade. A apresentação, vale lembrar, coincidiu com o pico da badalação em torno do quarteto da zona sul de São Paulo.
A noite anterior ao show no Paraná tinha sido marcada por uma aparição histórica na MTV, ilustrada por odes à periferia e frases do tipo ‘‘minha mãe teve que lavar muita roupa suja de playboy para eu estar aqui hoje’’. A partir daí, o que era culto, virou modinha de estação. Arnaldo Jabor chegou a dedicar uma coluna aos rapazes, exaltando-os como a celebridade musical da temporada.
Qual foi o motivo, então, do reduzido público no Ginásio Moringão? Preço dos ingressos que custavam R$ 10,00? Ausência dos tais playboys, temerosos de arrumar tretas com ‘‘maloqueiros de vila’’, como os jovens bem-nascidos chamam preconceituosamente a garotada da periferia? Bem, os Racionais MC’s estão de volta e se apresentam logo mais no Cabaré com o mesmo repertório engajado e raivoso do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), que mesmo lançado pelo selo independente Cosa Nostra (do próprio grupo) vendeu mais de 500 mil cópias.
O disco elevou os padrões do rap nacional esbanjando uma produção caprichada, combinando letras que abordam o dia-a-dia da população negra e pobre de São Paulo com samples da black music dos anos 70. Aclamado pela crítica, público e músicos em geral (de Caetano Veloso a Sepultura), o CD inclui uma reinterpretação de ‘‘Jorge da Capadócia’’, hit de Jorge Benjor. É a única menção no repertório à MPB, gênero com maioria de simpatizantes entre o público do Cabaré.
Soa como uma colher de chá, ainda que numa versão impactante. O restante das composições explode em batidas lentas e violência discursiva. É rap hostil e indócil, como o próprio comportamento dos integrantes do grupo.
•: Sobrevivendo no Inferno, show com Racionais MC’s. Hoje a partir de 23 horas, no Cabaré do Filo (Rua Taubaté, 170, antigo prédio da Londrimalhas). Ingressos individuais a R$ 10,00. Estudantes, idosos, funcionários da UEL e usuários da Tim Telepar, que apresentarem uma fatura telefônica terão desconto de 50%). Ponto de venda, na Casa de Cultura (Praça 1º de Maio, 118). Mais informações pelo telefone (043) 322-1030. O Cabaré abre suas portas às 21 horas.

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