Rainha negra remasterizada
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sexta-feira, 09 de janeiro de 1998
Antônio Mariano Júnior Londrina 
ReproduçãoAcompanhada, Clementina de Jesus faz maravilhas. Sozinha, arrasaEstava ela na beira do tanque. Cantarolava alguma coisa com sua voz forte e incomum enquanto desencardia roupas alheias. Era lavadeira. Quase 50 anos nas costas. Eis que entra em cena uma outra voz - debochada - e diz à senhora negra já com algum vincos profundos no rosto: O que é isso, Clementina, tá cantando ou tá miando?. Era a patroa. A lavadeira se calou e continuou a desencardir roupas.
Uma década e pouco depois, a lavadeira arrancava quilométricos elogios pelo seu jeito diferente de cantar. Seu vozeirão - mesmo que em alguns momentos beirasse a caricatura - arrebatava críticos e platéia. Tornava-se cantora. Mais que isso: uma senhora que trouxe à tona ritmos e estilos que sedimentavam a Música Popular Brasileira.
Em sua memória estavam cravadas antigas canções escravas, pontos de candomblé, lundu, jongos, incelenças, sambas de roda. Um verdadeiro acervo que, desde menina, ouvia sair da voz de sua mãe, igualmente lavadeira. Porém, a vida de Clementina de Jesus nunca foi um conto de fadas, daqueles com final feliz. Morreu pobre, explorada por empresários gananciosos, esquecida pela mídia.
Parecia aceitar tudo isso com resignação. Quantas e quantas vezes, no final de sua vida, compareceu a shows levada em cadeira de rodas, sem saber se no final receberia o cachê. Ia assim mesmo. A velha senhora ia onde quer que a chamassem por um simples motivo: prazer de cantar, de se expressar através da música. Só podia virar mito. Uma lenda. Uma sábia rainha.
Pois bem. A gravadora Emi, aos poucos, bem aos poucos, começa a trazer ao público parte da obra registrada por Clementina de Jesus. Seis anos depois de relançar num único CD - dentro da série Dois em Um - o disco Gente da Antiga (com Pixinguinha e João da Bahiana, de 68) e Marinheiro Só (73), está colocando no mercado o penúltimo trabalho de estúdio da cantora: Clementina e seus Convidados, de 79.
Trata-se de um trabalho interessantíssimo em que Clementina de Jesus (com a voz já um pouco desgastada, porém marcante ainda) reparte o microfone com oito convidados pra lá de especiais. As dozes faixas originais do disco ganharam a adição de duas faixas bônus - Marinheiro Só (adaptação de Caetano Veloso) e Mironga de Moça Branca (com Pixinguinha e João da Bahiana).
Clementina abre o disco com a deliciosa Tantas Você Fez (Candeia), ao lado de uma discreta Cristina Buarque. De cara, o ouvinte já se sente com vontade de ouvir as demais faixas. E é isso que acontece. Clementina não decepciona em nenhum momento. Tudo é muito bem cuidado, sincero, bonito. Cantando sozinha ou com seus convidados, Quelé vai destilando toda sua categoria, seja cantando compositores da velha guarda (Como Candeia, Nelson Sargento, Adoniran Barbosa, Dona Ivone Lara, Paulo da Portela, entre outros) ou contemporâneos (como João Bosco e Martinho da Vila).
Miséria contra o miserê Acompanhada, Clementina de Jesus faz maravilhas, por exemplo, com Clara Nunes em Embala Eu, no melhor estilo ponto de candomblé e, principalmente com Martinho da Vila em Assim não Zambi. Aliás, nessa última faixa é comovente ouvir Clementina cantando e também declamando os problemas que o morro enfrenta.
Com toda propriedade ela declama os versos de Martinho da Vila como quem dá um pito em Zambi, divindade africana. Ah, Zambi, tem outra coisa: clareia a cabeça da minha gente lá no morro/ Fala pra eles pará com tanta cachaçada, maconha e briga/ Devagar, tá legal, hum?!/Quando os nego tão doidão dão tiro à toa, à toa/ E quando eles inventam de brinca de bandido.../É o debaixo atacando o de cima, o da direita atacando o da esquerda/E o que é pior: ninguém é da direita e nem da esquerda; é todo mundo do mesmo morro/É a miséria brigando com o miserê. Sensacional.
Outra faixa que deve ser ouvida com atenção é Sonho Meu, em que por pouco o brilho de Clementina não é apagado em função das maravilhas vocais que Dona Ivone Lara faz. É um duelo de gente grande. Bem melhor que a gravação feita por Maria Bethânia e Gal Costa, se é para comparar.
Sozinha, Clementina arrasa, por exemplo, em Na Hora da Sede(Luís Américo-Braguinha) ou Papel Reclame (Nelson Sargento). Enfim, o disco inteiro vale a pena. Mas serve apenas de tira gosto já que Clementina deixou outras raridades que a Emi, num gesto de sincera gentileza e homenagem, poderia reeditar. Se isso acontecer, a gravadora estará prestando um grande serviço de utilidade pública já que ajudaria algumas pessoas a não resumir a arte de Clementina no popular refrão Não vadeia, Clementina.


