Rainha NEGRA da voz
Ilmar Carvalho
Do Rio de Janeiro
Especial para a Folha2
Clementina de Jesus entrou para a história da música brasileira como o grande repositório de toda a cultura negra. Aos palcos e discos ela levou uma diversidade incrível de ritmos e gêneros com seu timbre gutural e marcante
Com a morte de Clementina de Jesus, na madrugada de 19 de julho de 1986, no Rio de Janeiro, ou seja, há treze anos, desaparecia o elo mais importante da cultura musical de origem africana, que ela resgatou a partir de 1964, já então com 61 anos, quando subiu pela primeira vez no palco de Teatro Jovem, descoberta pelo compositor e promotor cultural Hermínio Bello de Carvalho. Hermínio, também poeta e escritor, com uma extraordinária obra no campo da animação cultural e de resgate da música popular, pôs os olhos em Clementina em agosto de 63, numa festa de Nossa Senhora da Glória, quando, diz ele, iluminada em suas rendas brancas, como sempre cantou, de alegria, por necessidade de comunicação. E disse mais: Naquele momento senti que acabava de acontecer algo importante em minha vida.
O lançador de Clementina para o público brasileiro, e que foi uma espécie de pai, Pigmalião e protetor dessa Galatéa negra, dá continuidade ao seu histórico e precioso depoimento, que integra a contracapa do primeiro disco de Clementina, editado em julho de 66:
Perdi-a de vista, e só fui revê-la na festa de inauguração da casa de samba de meus afilhados Cartola e Zica. A partir daí, não mais nos perdemos. Passei a ensaiá-la em minha casa (raramente cantava com acompanhamento, fazia-o livremente), seu repertório era imenso, mas lembrado fragmentariamente. E na noite de 7 de setembro de 64, através do movimento de vanguarda O Menestrel, de música e poesia, que fundei no Teatro Jovem, apresentei-a em concerto, fazendo a segunda parte de um recital em que atuava o violonista clássico Turíbrio Santos, hoje diretor do Museu Villa-Lobos. A crítica foi, em geral, avassaladora. O severo crítico Andrade Muricy, então presidente da Academia Brasileira de Música, classificou-a de extraordinária, e não foram menores os outros elogios. Meu espetáculo Rosa de Ouro, levado em 65 no Teatro Jovem e no Teatro Oficina de São Paulo, a consagraria definitivamente.
Para Hermínio Bello de Carvalho, Clementina de Jesus tem um papel histórico na música brasileira. Ela é um gênio do canto popular, com aquele poder misterioso que todos sentem, mas que nenhum filósofo explica - afirma. Não tenho por que disfarçar o orgulho de havê-la revelado ao público - complementa ele.
Clementina de Jesus nasceu em Valença (RJ) em 7 de fevereiro de 1902. Filha do estucador Paulo Batista dos Santos (violeiro nas horas vagas) e da partideira Amélia de Jesus Santos, que foi beneficiada pela Lei do Ventre Livre, escapando assim de ser escrava, como foram as avós de Clementina: Teresa e Mina. Moravam na Rua Carambita, numa casa situada a meio caminho de uma elevação, e em cujos fundos passava um córrego, onde dona Amélia ia enxaguar as roupas enquanto cantava para se distrair.
Clementina ficava sentada, vendo a mãe no ofício, e só despertava de sua cismas quando dona Amélia gritava: Tina, acende o cachimbo! Ouvindo sua mãe cantar, Clementina foi crescendo. Foram para Jacarepaguá quando tinha oito ou dez anos, disse que não se recordava bem.
A situação financeira não andava boa. Tempos depois, a família foi morar na Praça Seca perto do seu João Cartolinha, que botava grupamentos na rua por ocasião das Folias de Reis. Clementina fez logo amizade com Josefa, filha de seu João, e daí a pouco o festeiro ia pedir permissão ao tio Paulo (assim era tratado o pai de Clementina) para a menina frequentar seus pagodes, muito ordeiros e familiares.
Tio Paulo disse que ainda era cedo, a menina precisava de instrução - de fato ela foi semi-interna do Orfanato Santo Antônio, de onde só se retirava quando os sinos batiam as seis horas da tarde. De lá veio o hábito persistente de misseira fervorosa. Cantava de dia no coro da igreja. De noite, era certo encontrar Quelé (esse apelido que ganhará em Jacaranguá) na casa de seu Cartolinha.
Até os 15 anos, saiu de peixeira nas Folias. Seu João, por essa época, foi convidado a conhecer a agremiação As Moreninhas de Campinas e levou Clementina, cuja voz bonita já ganhava fama. Ela então saiu no bloco do clube (posteriormente o Come-Mosca) que daria origem à Escola de Samba Portela. Longo tempo ficou por lá. Conviveu com grandes sambistas: Gradim, Paulo da Portela, Bernado Mãozinha do Estácio, Claudionor, Nininho, Joel Silva e Noel Rosa, em cujo carro aberto, durante o Carnaval, chegou a desfilar (isto já na década de 30).
Cantou duas vezes na sessão de candomblé e partido alto realizadas na rua Visconde de Itaúna, onde morava a legendária Tia Ciata. Ia também aos jongos e caxambus de tia Dorothéa, em Oswaldo Cruz. Foi diretora dos blocos Unidos de Riachuelo e do Unidos de Engenho Velho, e sempre cantou assim, sem jamais sonhar em profissionalizar-se.
Heitor dos Prazeres teve, há longos anos, suas pastoras ensaiadas por Clementina, cuja disciplina era conhecida. Foi então que conheceu aquele a quem chamava de anjo da guarda, Albino Pé Grande, que a arrastou para o casamento, e também para a gloriosa Mangueira, onde fincou pé e não saiu mais. Foi oradora oficial da Ala da Velha Guarda da escola, integrante da Ala das Baianas Velhas, que tradicionalmente desfila nas segundas-feiras de Carnaval.
Clementina de Jesus resgatou toda uma informação musical da cultura de origem negra, acentua o compositor, intérprete e percussionista Élton Medeiros. Élton e Paulinho da Viola foram os acompanhadores, com atabaques, afoxé e pandeiro, da primeira apresentação da partideira no Teatro Jovem em 64, e que contou com a participação, ao violão, de César Faria, pai de Paulinho.
Depois de trabalharem juntos no espetáculo Rosa de Ouro, também idealizado por Hermínio Bello de Carvalho. A memória musical de Clementina fez dela um extraordinário e raro vetor dessa cultura negra fluminense e carioca.
Quem a assistiu em seus maravilhosos espetáculos, ou quem a ouviu e ouve através de seus discos, nota no repertório de Clementina uma diversidade incrível de ritmos e gêneros. Clementina trouxe para o palco o caxambu, que se assemelha em parte ao jongo, como dança, mas tanto a dança como os versos são expressos de forma lúdica- frisa Medeiros.
O compositor vai mais além: Clementina foi o repositório de toda a cultura negra sedimentada pelos descendentes de escravos, numa forma de sincretismo que ainda usa o português de permeio com dialetos africanos. Ela foi, também, a extraordinária intérprete de samba, de partido alto, da batucada, do lundu, das corimas, dos cantos de trabalho. Sabia dançar como ninguém todos os ritmos herdados dos negros, e quem a viu no palco dançando o miudinho, por exemplo, não a esquecerá nunca.
Para Medeiros, Clementina soube também interpretar a face cultural de nossa negritude. Ela demonstrou como é bela e rica essa arte, a despeito da discriminação que sofreu, em vida, de um sistema perverso, onde o racismo não é assim tão sutil, finaliza.





