São Paulo, 24 (AE) - Em maio de 1662, o compositor inglês Henry Purcell estava ansioso com a estréia de "The Fairy Queen", sua mais recente semi-ópera, inspirada em "Sonho de uma Noite de Verão", de William Shakespeare. Autor cultuado por suas ousadias harmônicas, melodia ambígua e dramaticidade contida, Purcell temia a receptividade do público. A apresentação teve um relativo sucesso, mas a partitura foi perdida, anos depois. Um anúncio publicado no jornal "London Gazette", com oferta de recompensa, surtiu efeito, pois a obra voltou a ser encenada, agora em 1703.
Novamente perdida, a partitura só foi reencontrada em 1901, permitindo assim sucessivas montagens. Amanhã (25) à noite
às 21 horas, a obra, traduzida para "Rainha das Fadas", estréia no Sesc Consolação, em São Paulo, mas com algumas alterações em relação ao original. "Promovi uma varredura nos diálogos, deixando apenas os cantos, que são árias festivas", explica o diretor Luiz P„etow, responsável pela dramaturgia da ópera. "Para evitar confusão, decidi manter só um dos casais, Lysander e Hérmia, que foge da cidade e busca refúgio na floresta".
P„etow assumiu o projeto que já era desenvolvido pelo Centro Experimental de Música (CEM) do Sesc, responsável por uma pesquisa realizada no ano passado, envolvendo a interpretação de trechos instrumentais da ópera. "Todas as peças foram bem treinadas pelo CEM ao longo de 1999; daí pedi ao Antunes Filho que indicasse alguém que se responsabilizasse pela direção cênica e de marcação", conta Emiliano Patarra, diretor musical da ópera que vai dividir a regência com Leonel Dias. O escolhido foi P„etow, de 22 anos, ator do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc e assistente de Antunes em "Fragmentos Troianos".
Em sua versão, Purcell manteve atores nos papéis principais e conservou a estrutura narrativa da obra de Shakespeare. A ação original, entretanto, foi enriquecida por canções e danças com acompanhamento musical extravagante, principalmente os bailados com chineses e macacos, no último ato. "Decidimos manter o mote principal de Shakespeare, ou seja
a fuga de um casal por um motivo qualquer, que pode ser uma guerra, até a chegada a uma floresta onde poderá viver verdadeiro sonho". Orquestra floresta - P„etow e Patarra desenvolveram uma montagem mais próxima de uma versão-concerto, em que a ação cênica original foi substituída pela narração em off. Decidiram ainda que as peças de dança e interlúdios musicais vão ser interpretadas pelos alunos do CEM, enquanto as árias, solos e peças corais estarão sob responsabilidade da Orquestra de Cordas LEstro Armonico. Ao todo, 43 músicos vão ocupar o palco do Sesc Anchieta e sua disposição em cena, favorecida pelos figurinos e iluminação especial, vai permitir que componham o cenário, representando a floresta.
"Será uma das principais surpresas que preparamos para o público acostumado a ver a orquestra instalada em um fosso", explica. A própria execução musical da obra foi criteriosamente elaborada pelos dois diretores. "As respirações e as notas vão ter o tempo certo em função do momento cênico", comenta P„etow, que só enfrentou dificuldades com a movimentação espacial dos solistas sem que perdessem o andamento do maestro. Restava planejar a solução teatral.
A decisão de fazer cortes no número de personagens foi tomada depois de muita reflexão - P„etow preferiu reduzir o foco em uma quantidade pequena, chegando aos oito cantores que dividem os principais papéis. A encenação ocorrerá em platôs, que vão deixar os intérpretes a uma altura superior à das orquestras. Todas as soluções só foram encontradas depois de um encontro que P„etow teve com a videoartista Guiomar Pessoa Ramos
que apontou a coincidência dos temas da ópera com a exaustão de fim de século vivido atualmente, graças ao bombardeio de informações.
"Foi assim que transportamos a ação para o mundo atual", explica o diretor, que buscou apoio também na obra do veterano documentarista francês Chris Marker, interessado principalmente na história social e novas tecnologias. Para Marker, este século talvez esteja prestes a pagar caro por ter abandonado o imaginário - ou, mais precisamente, prestes a render-se àqueles que possuem o seu, de baixo nível e em plena atividade.
"Quando escreveu "Sonho de uma Noite de Verão", Shakespeare vivia um momento sofrido pois perdera um filho", explica P„etow. "É o que explica o texto vívido e amoroso, que ele compôs com fervor, como catarse". Em "Rainha das Fadas", Luiz P„etow busca apresentar o pensamento nuclear com que pretendeu unir Shakeaspeare, Parcell, Marker e seu trabalho ao lado de Patarra: "Sem amor, nada é possível. Com amor, porém, é pior ainda, pois ele nos distrai do pensamento da morte". Serviço - "Rainha das Fadas". De Henry Purcell. De terça à quinta, às 21 h. R$ 4,00. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 234-3000. Até 27/4.

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