Desde que teve a vida documentada no vídeo ‘‘Rainha do Papel’’, Efigênia Rolim assumiu o título de nobreza para sua própria identificação. Foi assim que, postada na dignidade de rainha, adentrou na terça-feira passada no Senado Galeria – espaço do Senado Federal, em Brasília – para a abertura da exposição ‘‘Efigênia Ramos Rolim – A Doçura de uma Floresta Paranaense’’.
Com ela estava a secretária de Cultura, Lúcia Camargo. Esperando-a, autoridades como a ministra interina da Cultura, Maria Emília Rocha Melo de Azevedo, que comentou ser um ‘‘projeto original e interessante’’, o secretário de Música e Artes Cênicas Joatan Vilela Berbel, o deputado Ricardo Barros e o senador Osmar Dias.
A individual de Efigênia, mineira de 68 anos, nascida em Abre Campo, reúne trabalhos desenvolvidos a partir de uma oficina com as crianças do Colégio Positivo Júnior, de Curitiba. São árvores e objetos feitos com papéis de bombons e balas que ocupam 24 vitrines do espaço.
Numa maleta a artista colocou cartas dos pequenos estudantes que pedem às autoridades atenção para as crianças de rua, as que não têm escolas e quando as tem, são muito distantes. Pedem, ainda, creches e menos violência.
‘‘Eles dizem nas cartas que o Presidente da República fez uma coisa muito boa que é o real, mas mas onde está o real? Onde está nosso salário agora? Sei de tudo porque li as 25 cartinhas deles. É uma coisa muito bonita, vai com a letrinha deles’’.
A mineira que adotou Curitiba para viver depois de migrar para o interior paranaense, onde trabalhou na lavoura, e que aqui chegou forçada pelas contingências – o marido morreu deixando-a com nove filhos –, a princípio não gostou da idéia de expor em Brasília. Ficou receosa com o convite e planejou ‘‘morrer de mentirinha’’. Angustiada, chegou em casa e orou com a Bíblia na mão. A mensagem bíblica onde seus olhos pousaram transformou-se num aviso para ela e daí os caminhos se iluminaram.
Poeta, performática, escultora – há várias definições para a mulher de cabelos brancos, sorriso constante nos lábios e dona de dois botões: se aperta um fala sem parar, se aperta outro, cala-se. ‘‘Pareço um boneco, qual botão você apertar eu vou falar ou ficar quieta’’. Na maioria das vezes é acionado o da fala.
Entre suas histórias, já contadas até mesmo em programas como o de Jô Soares e do Caco Barcelos, para a Globo News, está a da descoberta dos papéis em sua vida. Sentada em frente à Catedral, na Praça Tiradentes, Efigênia enganou-se com um papel dourado – pensou que fosse uma jóia. De algum modo acabou se tornando peça valiosa, pois foi ali que a arte conquistou-a.
‘‘A arte está em nós, do nosso lado, mas o homem só vê o contrário’’, adverte Efigênia. ‘‘Ele só vê coisas grandes. Com grande não se faz grande, mas com grande é capaz de fazer pequeno, e com os pequenos é que se faz grande. Acho uma coisa muito forte quando falo assim. O nenê para nascer tem que ser um embriãozinho dentro da mãe’’.
Sobre a viagem a Brasília a artista comentou às vésperas do embarque, que não estava preocupada sobre quem estaria na sua exposição. Nesse sentido, expectativa zero: ‘‘Apenas vou assumir um chamado de trabalho e mostrar a minha arte; com certeza minha obra vai ser reconhecida. Estou confiante que vai ser bom’’. Postura elegante como condiz à uma Rainha do Papel.

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