Ela anda esquecida. Dizem que só vira assunto de conversa depois do quinto copo, em reencontros de amigos saudosistas. Mas, em 99, a lembrança dos 40 anos de morte de Dolores Duran promete reabilitar sua fama de rainha da fossa para as novas gerações.
A musa da dor-de-cotovelo será homenageada já no primeiro mês do próximo ano com um espetáculo musical a ser montado no Teatro II do CCBB, no Rio de Janeiro. Está previsto também o lançamento de um livro sobre sua vida e obra pela editora 34, de autoria da jornalista Angela de Almeida.
Na peça, coube à atriz Soraia Ravenle protagonizar o papel principal, sob direção geral de Antônio De Bonis, direção musical de Tim Rescala e texto de Douglas Dwight e Fátima Valença. A montagem vai atravessar o túnel de tempo e trazer de volta as noites de Copacabana, quando esta ainda era a princesinha do mar e acolhia os mais ilustres solitários do Rio para enxugar garrafas entre um desabafo e outro sobre o balcão.
Dolores Duran compôs a trilha sonora de boêmios, românticos incuráveis e mal sucedidos no amor. Ela mesma fazia parte da fauna, trocando o dia pela noite e vivendo paixões frustradas. Cantava em boates, bebia aqui e ali e rascunhava letras de músicas em guardanapos usando um lápis de sobrancelha. Desde menina, sonhava com o estrelato.
Aos 10 anos, tirou o primeiro lugar num programa de calouros comandado por Ari Barroso na rádio Tupi. Depois fez shows de bairros, radioteatro e peças infantis até chegar à fase adulta cantando em casas noturnas. A estréia em disco ocorreu em 1952, quando gravou os sambas ‘‘Que Bom Serᒒ e ‘‘Já não Interessa’’ para o carnaval do ano seguinte. Nada aconteceu.
A primeira canção a trazer sua autoria foi ‘‘Se É por Falta de Adeus’’, gravada por Dóris Monteiro em 1955. Era sua primeira parceria com o também novato Tom Jobim. Consta que certa vez ela estava encostada num balcão e, ao ouvir Tom dedilhar uma melodia no violão, prontificou-se a fazer a letra. O músico, sóbrio e educado, não teve como dizer que Vinicius de Moraes já havia escrito os versos.
Dolores, sabendo, pegou o telefone e apresentou sua versão ao poetinha. Feita a comparação, ele concordou que a letra da amiga era melhor e rasgou o papel onde estava rabiscado a sua. Assim teria nascido ‘‘Por Causa de Voc꒒. Dolores Duran era páreo para qualquer compositor, coisa rara em se tratando de um país em que as cantoras ainda hoje evitam se aventurar na criação contentando-se em interpretar músicas alheias.
No caso de ‘‘Bochecha’’, seu apelido, as músicas nasciam sem esforço. Muitas vezes, brotavam dentro do carro. Não foram poucas as ocasiões em que seu ex-marido e ator Macedo Neto era obrigado a parar o automóvel sob um poste iluminado, a pedido da inspirada esposa. Foi num desses imprevistos aliás, no trajeto entre o Alto da Boa Vista e o Beco das Garrafas, que ela teria escrito ‘‘Solidão’’.
Dolores legou clássicos da desilusão amorosa. A começar por ‘‘A Noite do Meu Bem’’, seguida de ‘‘Castigo’’, ‘‘Fim de Caso’’, as já citadas e outras mais. Em parceria deixou, para ficar nas mais conhecidas, ‘‘Idéias Erradas’’, ‘‘Quem Sou Eu’’, ‘‘Pela Rua’’ (as três com Ribamar), ‘‘Canção da Tristeza’’ e ‘‘Olhe o Tempo Passando’’ (ambas com Edson Borges).
Mas se como compositora Dolores Duran pairava nas alturas, como intérprete deixava todos no chão, de quatro. Ao ouvi-la no palco enfumaçado da boate carioca Baccarat, Ella Fitzgerald não se conteve: ‘‘esta foi a melhor interpretação de ‘My Funny Valentine’ que já ouvi’’, teria afirmado a famosa cantora de jazz em sua passagem pelo Brasil.
Das cerca de 50 canções que deixou, a mais marcante talvez tenha sido ‘‘A Noite do Meu Bem’’, lançada em setembro de 1959. Ela, porém, não conseguiu saborear esse sucesso, morrendo um mês depois do disco chegar às lojas, vítima de um ataque cardíaco. Dolores Duran tinha apenas 29 anos. Lá do ‘‘andar de cima’’, ainda pôde ver a mansa chegada da bossa nova na orla da música popular brasileira. Mas essa já é outra história.

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