São Paulo, 18 (AE) - A Pinacoteca do Estado abre na quarta-feira a maior retrospectiva dedicada ao pintor e escultor Rafael Galvez, morto no ano passado, aos 91 anos. São 300 obras que cobrem todos os períodos de produção de Galvez, dos anos 20 aos 90. Ele pintou até sua morte, ocupando o mesmo ateliê na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, de onde jamais saiu. A exposição reúne algumas esculturas, desenhos e pinturas que estavam no estúdio do artista, agora homenageado com a retrospectiva e o lançamento de um livro sobre a sua obra, escrito pela curadora da mostra, a historiadora de arte Vera dHorta, e publicado pelo colecionador Orandi Momesso.
Contemporâneo de Volpi, Galvez deixou mais de 800 peças, entre elas obras públicas como a estátua de Cervantes instalada ao lado da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Um pequeno estudo dessa escultura, que o artista conservava em seu estúdio, vai estar numa das salas da Pinacoteca, que recebeu obras emprestadas pelo Masp, MAC, Prefeitura de São Paulo e 12 colecionadores particulares, entre eles Orandi Momesso, que guarda as memórias, cartas e objetos pessoais de Galvez para uma futura fundação com o nome do artista. As memórias serão publicadas brevemente, garantiu Momesso ontem, quando a curadora Vera dHorta apresentou a exposição à imprensa. Cegueira - A maior parte das telas em exposição é formada por paisagens de São Paulo, pintadas nas longas viagens de Galvez e amigos aos bairros que, nos anos 40, eram considerados periféricos, como o Canindé. Galvez tomava o bonde e muitas vezes, ao chegar, via o dia ensolarado transformar-se em chuvoso
estragando seus planos. "Ele esperava a nuvem cinzenta passar e, caso isso não acontecesse, pintava mesmo assim", conta a curadora. Isso não caracterizava, segundo ela, uma vocação impressionista. Galvez sempre esteve mais próximo dos expressionistas alemães.
Muitos dos amigos pintores de Galvez que o acompanhavam nessas andanças pela cidade terminaram fazendo retratos do pintor. Na exposição há cinco deles, assinados, entre outros, por Gastão Worms, Flávio Motta e Joaquim Lopes Figueira. Nos auto-retratos - e são muitos - é possível identificar certa intenção paródica, especialmente naqueles produzidos na última fase. Os mais curiosos mostram Galvez sem olhos, como nos quadros de Modigliani.
Essa "cegueira" tinha, segundo a curadora Vera dHorta
um sentido metafórico, bíblico. Quanto menos ele via, mais enxergava, ou seja, maior a sua percepção do mundo. Há, na mostra, um Cristo com os olhos fechados "para não ver a maldade dos homens", como escreveu Galvez no verso da tela.
A retrospectiva vai mostrar pela primeira vez uma série que o pintor escondia a sete chaves e que, apropriadamente, chamou de "fase segredo". Produzida nos anos 80 e 90, a série traz retratos dos grandes ídolos de Galvez, de Michelangelo a Beethoven, que ele mantinha escondidos num cantinho do ateliê e só mostrava para os mais íntimos. São telas gestuais que dialogam involuntariamente com a fúria dos novos selvagens alemães e a transvanguarda italiana. Prodígio - Nascido na Barra Funda, em 1907, filho de pai espanhol e mãe italiana, ele começou a brincar de esculpir ainda pequeno, construindo bonecos com o barro trazido pelas enchentes. O avô materno, Gaetano, percebendo o talento do neto, pediu à filha que o matriculasse na Escola de Aprendizes Artífices, em 1920. Aprendeu escultura e trabalhou até sua aposentadoria numa marmoraria, esculpindo relevos para os principais cemitérios de São Paulo.
Galvez fez sua primeira individual há 50 anos, na Galeria Domus, ano em que assumiu o cargo de professor na Escola Livre de Artes Plásticas, ao lado de Brecheret e Bruno Giorgi. Parte dessa história é contada no livro que traz a dissertação de mestrado da pesquisadora Mayra Laudanna, lançado com a retrospectiva. A pesquisadora frequentou o ateliê do artista por mais de dez anos.

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