Radua Nassar ressurge das cinzas
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de julho de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Alguns escritores precisam escrever dezenas de livros para se tornarem famosos. Outros precisam morrer de maneira trágica para que sejam cultuados. Com o escritor paulista Raduan Nassar a coisa foi bem diferente.
Publicou seu primeiro livro em 1975, Lavoura Arcaica, um romance em que mergulhava com elegância no lago da prosa poética. Ganhou prêmios da Academia Brasileira de Letras e o Jabuti de revelação. Três anos depois, em 1978, publicou a novela Um Copo de Cólera, onde expunha o eterno conflito entre os sexos com uma abordagem carregada de anarquismo. Mais uma vez a linguagem de sua narrativa causava surpresa e recebeu prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Logo em seguida, os dois livros foram publicados na Espanha e França.
Tudo indicava que Raduan Nassar teria uma carreira promissora, críticos aplaudindo, leitores deliciando-se com seus escritos, editoras solicitando novos livros, jornais publicando longos elogios. Permaneceu em silêncio até o início da década de 80, quando, em vez de anunciar a publicação de um novo livro, anunciou que estava abandonado definitivamente a literatura. Não escreveria mais nenhuma linha, não publicaria mais nenhum livro, nada de nada. Havia comprado um sítio na pequena cidade de Buri, interior de São Paulo, e iria se dedicar exclusivamente à agricultura e pecuária.
Com certa dose de ironia, dizia que não considerava muito diferente o processo de criação literária do processo de criação em outras áreas, como por exemplo a criação de animais e o cultivo de plantas. A criação estaria em qualquer lugar em que o homem estivesse pleno de sua própria vida.
Abandonando a literatura, como fizera em outra época Arthur Rimbaud, Raduan Nassar caminhou para a mitificação. O fato de abandonar uma carreira que se apresentava grandiosa, conferiu um sentido maior aos seus escritos. A coragem do homem que deixa tudo para trás para seguir em frente como o único e real responsável pela própria existência sempre despertou interesse.
Quem é Raduan Nassar nasceu em 1936 na cidade de Pindorama, interior de São Paulo, filho de imigrantes libaneses numa família de dez irmãos. Adolescente, mudou-se para a capital e ingressou no curso de Letras Clássicas, que abandonou sem concluir. Estudou Direito no Largo de São Francisco e também abandonou o curso para entrar em outra faculdade, a de Filosofia, da qual também acabou desistindo. Trabalhou no comércio, jornalismo e aventurou-se num emprego no exterior. Nada durou muito tempo.
Em um pequeno texto autobiográfico para a 3ª edição de Um Copo de Cólera de 1984, Nassar depois de contar todas as tentativas de levar a vida para frente, confessa: Diante disso, caro leitor, e mesmo de outros desencontros não tão banais, seria ledo engano concluir que só fiz quebrar a cara na vida. Hoje, finalmente, estou perto de realizar o que mais queria ser quando criança: criador! Nada a ver, está claro, com a auto-suficiência exclusiva dos artistas (Deus os tenha!), que estou falando simplesmente em criador de bichos. É o que venho fazendo no Sítio Capaúva, a 250 km de São Paulo, onde tenho passado mais tempo que na Capital. Aliás, se já suspeitei uma vez, continuo agora mais desconfiado ainda de que não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas.
O ato de criar Nassar escolheu colocar em prática uma atitude intrínseca a todo ser humano: a criação. Todos sabem que criar patos, coelhos, alface, minhocas, cenouras e tudo mais não se resume ao objetivo final do ato, mas a relação que o criador desenvolve com a criação. A criação final depende do trabalho empreendido pelo criador, etapa por etapa. Um pato vai ser criado de qualquer forma, basta um punhado de comida e um pouco dágua, mas a relação que o criador estabelece com a criatura é a grande obra, a sua obra pessoal. Com a arte e literatura as coisas não são muito diferentes. A alma da arte não está no produto final. Está no que a arte é capaz de produzir dentro da pessoa que entra em contato com ela.
Após 19 anos de exílio voluntário, Raduan Nassar volta à tona com o lançamento de Menina a Caminho pela Editora Companhia das Letras. O livro reúne cinco pequenas narrativas do escritor criadas entre 1960 e 1972, publicadas em revistas, jornais e coletâneas literárias. A novidade está em um texto inédito, escrito em 1996 especialmente para um dos volumes dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles. O texto acabou sendo excluído da edição dedicada a Nassar por exigência do próprio escritor.
A linguagem Neste pequeno texto, intitulado Mãozinhas de Seda, o autor quebra seu voto de abandono literário para falar exatamente sobre os círculos literários. Com elegante ironia, Nassar fala das lembranças de seu bisavô, sempre bem arrumado, que dizia que a diplomacia é a maior das ciências. Para ser mais exato: O negócio é fazer média. Contando como as moças de muitos anos atrás usavam pedra-pome nas mãos para retirar os calos e frequentar os bailes com mãos de seda, escreve como os intelectuais dos dias de hoje - eruditos, pretensiosos - utilizando constantemente a pedra-pome. No rosto. A velha e sempre usada receita de troca de prestígio dentro do grande comércio de idéias: o negócio é fazer média.
Entre as outras narrativas do livro - Hoje de Madrugada e O Ventre Seco de 1970, e Aí Pelas Três da Tarde de 1972 - destaca-se o conto que dá título ao volume, Menina a Caminho, escrito nos anos 60. Nassar narra tudo que uma menina vê enquanto anda sem destino pelas ruas de uma pequena cidade do interior. Ela captura as imagens e observando-as passa, sem nenhuma intensão, a alterá-las levemente. Como se os olhos da menina fossem uma polaróide registrando fragmentos de pessoas, fatos e sensações, Raduan Nassar pinta a as delicadas etapas de transição da infância para o mundo adulto. Um caminho que conduz para tragédia cotidiana.
Os outros textos do livro seguem o mesmo trabalho de linguagem de suas duas obras anteriores - onde o modo de dizer, a linguagem utilizada, diz tanto quanto os fatos e histórias relatadas. É bom lembrar: os livros Lavouras Arcaica e Um Copo de Cólera foram relançados no ano passado pela Editora Companhia das Letras.
q Menina a Caminho - de Raduan Nassar, Editora Companhia das Letras, 85 páginas, R$ 13,50/Livraria Rosa do Povo.


