Radionovela para o século 21
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sexta-feira, 13 de abril de 2018
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Se hoje várias emissoras de televisão e produtoras no Brasil são responsáveis por produções refinadas de telenovelas e seriados com investimentos milionários - que inclui elenco renomado e grandes cenários de estúdios - , nem sempre foi assim. Até o início da popularização do aparelho de TV, na década de 60, as radionovelas é que reinavam dentro das casas entre as famílias, tendo seu auge na Era de Ouro do rádio no país, nas décadas de 40 e 50: uma mistura de programa de auditório, ora gravado ao vivo em estúdio de rádio, com direito a muita criatividade na sonoplastia, tramas divertidas e locuções melodramáticas, que lançaram vários atores (muitos dos quais migraram para a televisão nos anos seguintes) e marcou a história radiofônica no país.
Com o avanço da tecnologia e dos aparelhos eletrônicos, a nostalgia está ao alcance do toque dos dedos. Por meio do Ubook, maior plataforma de audiolivros por streaming da América Latina, foi lançada no começo do mês de março, a primeira audionovela do país, "Os Bollagattos". Em outras palavras, uma radionovela da atualidade, cujo formato do áudio permite que os capítulos sejam ouvidos a qualquer hora e lugar por smartphones, tablets e computadores com acesso à internet; uma prova de que o rádio se mantém vivo em multiplataformas. O roteiro deste projeto foi escrito e dirigido por Luis Antonio Pereira e tem no elenco atores conhecidos da TV e teatro como Bianca Rinaldi, Paloma Bernardi, Mayte Piragibe, André Ramiro, Priscila Fantin, Raquel Fabbri, Paulo Hamilton, Brendha Haddad, Daniel Braga e Henrique Pires. Os assinantes da plataforma têm acesso a um novo capítulo toda quinta-feira, a partir das 17h.

A audionovela "Os Bollagattos" conta a história de uma família que lidera o crime no Rio de Janeiro de 1945, na qual dona Vitória Bollagatto (Raquel Fabbri) é a matriarca. Miguela (Priscila Fantin, Bianca Rinaldi e Maytê Piragibe) nunca quis se envolver nos negócios ilícitos, mas após a mãe sofrer um atentado, patrocinado pela família Tortellini, se torna ainda mais temida que a própria mãe. Ao longo dos capítulos, o ouvinte perceberá uma mudança também na personalidade de Miguela: no começo, ela é mais reticente; depois, ganha confiança e torna-se uma mulher mais alegre e espalhafatosa, transformando-se em melodramática e sombria ao final. A passagem do tempo da personagem é caracterizada pela atuação de três atrizes diferentes.

PRODUÇÃO
O roteiro de "Os Bollagattos", segundo o diretor, já existia desde a década de 90, mas foi somente no ano passado que a ideia saiu do papel. "O avanço da tecnologia e, com isso, a possibilidade de pós-produção, possibilitou a execução desse projeto com menos recursos. Se na Era de Ouro do rádio tudo acontecia ao vivo, agora, um roteiro pode ser gravado, regravado, além da sonoplastia e trilha serem incorporadas depois", explica. Todos os capítulos foram gravados com grande parte do elenco reunido no mesmo estúdio de forma que todos se vissem. O diretor, que também foi o locutor, ficava em outro ambiente, uma espécie de aquário, no qual tinha a visão global dos atores. "Este contato visual é essencial no trabalho para que um ator perceba o outro. Mas a dinâmica de uma radionovela é bem diferente de uma telenovela, teatro ou, ainda, da dublagem".
Com 15 capítulos no total, cada um possui, em média, 30 minutos de duração. "Pela possibilidade maior de trabalho com a voz, os atores fizeram vários personagens durante a trama; um deles chegou a interpretar vinte vozes diferentes". O roteiro, de acordo com ele, é voltado para que os atores desenvolvam a cena e o ouvinte crie as imagens. "Para isso, os diálogos precisam ser muito bem articulados, a descrição do ambiente deve ser clara com informações precisas, e a inserção de sons e trilhas marcantes", ressalta, acrescentando que vê muito potencial de mercado e público neste tipo de produto, cujo valor do custo de produção é bem inferior ao audiovisual. "O uso de streaming para vídeo, música ou livro tem se popularizado no Brasil e a audionovela vem somar nessa nova dinâmica de consumo, que tem a vantagem da mobilidade".
O ator Daniel Braga, que participa de "Os Bollagattos", conta que, apesar de já ter feito leitura dramatizada e locução anteriormente, o trabalho de audionovela foi muito diferente. "Fiz muitos personagens distintos nesta trama. O contato entre os atores na hora de gravar foi fundamental para que a voz naturalmente saísse de acordo com o personagem, além da presença do diretor, que realizou a locução para entrarmos no clima da cena, conduzindo de forma incrível para que os atores pudessem se apropriar dos personagens para a história fluir", diz. A atriz Maytê Piragibe, também ressaltou a chance de exercitar a criatividade na hora da gravação e a preocupação nos cuidados com a dicção e pronúncia. "A telenovela é única, mas a radionovela repaginada é um resgate à nossa essência, uma forma de reconfiguração da dramaturgia que a tecnologia trouxe".

Londrina exportava suas produções
José Makiolke, o Zezão, famoso e carismático radialista de Londrina, começou sua vida profissional em radionovela, em 1964. "Foi na antiga Rádio Difusora, com apenas 16 anos. Estavam precisando de atores para rádio teatro", lembra ele, que, anos antes, começou os estudos em atuação para superar as dificuldades de fala por causa da gagueira. No primeiro trabalho, já fez três personagens. "Era preciso ter muito cuidado para não perder o registro da voz de cada um, pois são texturas diferentes". Não demorou muito e logo estava na Rádio Atalaia, famosa pelas produções, gravando radionovelas com vários atores da época como Margarida Marin, Carlos Gonçalves e o atual senador Álvaro Dias, à época, responsável pelas narrações. "Londrina foi um polo de produção de radionovelas que eram vendidas para o Brasil todo. Também fazíamos muita novela policial, baseada em fatos reais", rememora, citando outros profissionais, como a jornalista Vita Guimarães, que, ainda jovem, já dava os primeiros passos no gênero de novela policial e, mais tarde, tornou-se uma das mais conhecidas repórteres policiais da cidade.
Em 2014, a Rádio UEL FM (107,9 MHZ) estreou a radionovela "Conversas na Estação", que apresentou 19 episódios inspirados na obra e vida do compositor baiano Raul Seixas. A produção e direção foi do professor Cesar Carvalho, do Departamento de Ciências Sociais. O elenco foi formado por atores de Londrina como Poka Marques, Mira Roxo, Apolo Theodoro, Cláudio Rodrigues e Ciça Guirado. De acordo com o professor e escritor, a radionovela fez parte da sexta e última temporada do programa "Estação Raul", que veiculava uma música do compositor seguida de um comentário filosófico ou político. "Vimos que, no programa, também cabia uma narrativa ficcional resultante de pesquisa", conta. O enredo contava a história de um amor impossível, inspirada nas músicas e vida de Raul Seixas.


