Milton DóriaJanete El Hauli: ‘‘O rádio-arte trata de uma arte insistentemente sonora com princípios de imagens acústicas’’Segunda-feira de Carnaval. Na Rádio Universidade, um programa transmite faixas que mais parecem gritos e sussurros agoniados. Era mais uma edição do programa Música Nova, produzido e apresentado por Janete El Hauly - professora da Universidade Estadual de Londrina -, no ar há quase sete anos com a característica de levar ao público uma produção cultural que dificilmente ganharia espaço em outras rádios.
Aprofundando-se nos estudos sobre música contemporânea, Janete está se preparando para defender uma tese de doutorado no começo de 1999 sobre um conceito ainda pouco difundido no Brasil: rádio-arte, uma nova forma de pesquisar e utilizar o rádio, possibilitando ao público o contato com produções que escapam ao âmbito comercial.
‘‘A expressão está ligada - quase como sinônimo - a áudio-arte, a Horspiel, a uma espécie de escuta literal de peças radiofônicas’’, explica Janete El Hauly.
Um dos fatos que colaboraram com o surgimento dessas tendências para o rádio ocorreu em 1913, quando o músico italiano Luigi Russolo introduziu ruídos como elemento estético na música em A Arte dos Ruídos.
‘‘Esse talvez seja o ponto de partida para a arte acústica, que trabalhava com discurso sonoro e já não tinha preocupação com a sintaxe, com o conteúdo linear’’, comenta Janete, ressaltando outro elemento: ‘‘O Horspiel começou na Alemanha nos anos 20, e era uma adaptação entre literatura e drama, e a palavra era um componente importante, acompanhada de músicas e ruídos que lembram a radionovela brasileira’’.
Ainda entre as inovações está a música eletroacústica, que ganhou impulso nos anos 60, e a música concreta, com Pierre Schaeffer e o GRM - Groupe de Recherces Musicales. Outro destaque é o conceito de poesia sonora - que busca a veiculação da ‘‘poesia do som’’ pelo rádio -, ligado a artistas futuristas russos e italianos.
‘‘O rádio-arte trata de uma arte insistentemente sonora com princípios de imagens acústicas, que explora também o conteúdo visual do áudio’’, ressalta Janete. Nesse contexto destacam-se outras formas de produção radiofônica, como o Feature - que agrega documentário, ficção e realidade - e o New Horspiel - que surge na década de 60.
‘‘O New Horspiel levou artistas de outras áreas, como poetas e músicos, a investirem em uma produção sonora inaugural, formando-se autores de composições para rádio. É importante acrescentar o conceito de paisagens sonoras, utilizado para a instalação ou mesmo deslocamento de ambientes acústicos. Pode-se, por exemplo, fazer um ensaio fonográfico sobre a acústica de uma cidade’’, assegura.
A idéia de abrir espaço no rádio para formas pouco divulgadas de produção artística já perseguia a professora antes do início do doutorado - desenvolvido no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) -, quando ela foi convidada para assumir o setor de música erudita da Rádio Universidade FM de Londrina e conseguiu espaço para produzir o Música Nova, programa vinculado ao Núcleo de Música Contemporânea do Departamento de Artes que vai ao ar toda segunda-feira às 21 horas.
‘‘Comecei o projeto porque acho que as pessoas têm o direito de ter acesso a outras informações. É o único programa de música contemporânea há tanto tempo no ar no Brasil, e agradeço àqueles que me deram essa oportunidade’’, afirma Janete.
As pesquisas levaram a professora à Europa, onde as novidades na área pipocam a todo instante. ‘‘Durante o meu doutorado eu fiz um curso sobre o cineasta Peter Greenaway e cheguei à conclusão que quero pensar o rádio como o Greenaway pensa o cinema. Mas essa idéia já existe desde a década de 30, quando o alemão Walter Ruttman fez uma peça radiofônica que é cinema para o ouvido’’.
O tema rádio-arte é tão recente no Brasil que existem poucas pessoas pesquisando. O espaço reduzido do assunto tanto nas rádios quanto nas pesquisas é explicado pela professora como um dos reflexos de uma ‘‘ditadura do gosto’’: ‘‘Acho que está ligado a isso e à desinformação. Se você mostra apenas um tipo de coisa você vai estratificando mais e contribuindo para a formação de um único gosto. Essas poucas pessoas que trabalham com o tema não mantêm contato e por isso não vamos estratificar nosso trabalho’’.
Para Janete existe também uma inflação de imagens frente a uma inflação de sons: ‘‘As inúmeras tendências que orientam a arte radiofônica rompem com as tiranias imperantes do continuum radiofônico vigente. Nesse aspecto podemos afirmar que o espaço da criação independe do tipo de ferramenta. E o rádio pode ser o fomentador dessa criação específica, original, insubstituível, difundindo perspectivas, idéias, imagens sonoras e ‘ouvidos pensantes’’.
Entre os projetos da professora estão três realizações radiofônicas, duas delas serão produzidas na Alemanha - os detalhes ainda não podem ser divulgados. Além disso, Janete El Hauly terá seu mestrado publicado na Europa em edição bilíngue - italiano/inglês. O texto trata do músico Demetrio Stratos e deve ser publicado também no Brasil. A professora segue em junho para a Itália, onde participará do Festival de Rádio e Mídia em Espaços Eletrônicos. O material recolhido pela professora na Europa vinculado à rádio-arte começará a ser veiculado no Música Nova a partir deste mês.

mockup