No dia 1º de agosto de 1993 entrava no ar, pelas ondas de frequência modulada da rádio Universidade de Londrina, um programa ousado. Produzido e apresentado por Fernanda Jiran, professora aposentada de português e literatura, propunha-se a ser ''um programa feito exclusivamente para você, que aprecia ou deseja conhecer ópera'', de acordo com o slogan mantido até hoje. Mas será que alguém desejaria, de fato, conhecer ópera, um gênero que mescla teatro e balé com música cantada em alto e bom som e que põe uma pitada de comédia em enredos que acabam resvalando, quase que inevitavelmente, para o drama? Desafio lançado, foi feita uma pesquisa de audiência com o público da periferia da cidade e não é que o ''Para gostar de ópera'' registrou os mesmos índices obtidos por programas marcadamente populares, como ''Roda de Samba'' e ''Som Minuano''?
''As pessoas gostam de ópera'', explica Fernanda, ''só que não sabem disso, porque há muito preconceito em relação à música denominada erudita''. Basta ouvir uma vez, no entanto, ''para que percebam que a música está dentro delas e que entrar em sintonia com essa arte só faz bem''. Para facilitar essa abordagem inicial, o programa sempre se pautou por uma orientação didática, levando ao ouvinte ''uma ópera explicada''. Contudo, para os não iniciados, Fernanda sugere começar ouvindo Giacomo Puccini (1859-1924), pois ''todo mundo ama suas árias'' peças musicais para uma só voz e que exprimem o sentimento predominante do tema abordado. Pode-se, então, seguir para Giuseppe Verdi (1813-1901), ''mais solene'', segundo Fernanda, mas capaz de, justamente na fase final de sua vida, compor uma comédia como ''Faustaff'', baseada nas ''Alegres Comadres de Windsor'', de Shakespeare. Só depois, então, dá para chegar a Richard Wagner (1813-1883), que ''desenvolveu o conceito sinfônico de ópera'', unindo drama e música numa única forma de expressão. É dele a famosa tetralogia conjunto de quatro óperas ''O Anel dos Nibelungos'', que trata do tema da maldição ligada à posse do ouro.
Mas foi provavelmente Puccini quem melhor captou e expressou, por meio de óperas como ''La Bohème'' (1896), ''Tosca'' (1900) e ''Madame Butterfly'' (1904), uma das características mais instigantes do gênero, que é ''a de apresentar personagens femininas grandiosas'', como diz Fernanda, ''mulheres apaixonadas, passionais, e que sempre levam a pior no fim da história''. Talvez por essa intensa peculiaridade, a ópera seja, em geral, associada à idéia de ''divas'' e ''prima-donas'', aquelas intérpretes notáveis pela presença em cena e pela voz imponente. Entre as preferidas de Fernanda, estão a ''eterna'' Maria Callas, que viveu dramas pessoais comparáveis àqueles que interpretou nos palcos, como o ''affair'' com o poderoso Aristóteles Onassis e o trágico dilema de ter sido alguém ''que cantou de tudo e, no fim, perdeu a voz''; a ''incomparável'' Kiri Te Kanawa que, adotada por um casal neozelandês depois de ter sido criada num orfanato, conquistou o mundo com sua ''voz de mel''; e a ''insuperável'' Jessye Norman, 1,88 metros de beleza e elegância negra, que obteve o 1º lugar em um concurso de canto e música de Munich, na Alemanha, com apenas 23 anos de idade e, em seguida, contratada pela Ópera de Berlim, interpretou a loura Elizabeth, a principal personagem feminina da ópera ''Tannhauser'', de Wagner.
Se ouvir é bom, ver é melhor ainda, porque ''a ópera é, antes de tudo, um espetáculo'', comenta Fernanda. Aí, o jeito é utilizar os recursos do vídeo, como se faz na Associação Médica de Londrina, cuja programação cultural inteiramente gratuita, coordenada também por Fernanda Jiran, inclui o ''Ópera aos Domingos'', com apresentações comentadas em vídeo ou DVD. Mas, caso a opção seja no início apenas ouvir, pelo menos para saber do que se trata, então vale a pena sintonizar a rádio Universidade hoje, às 21 horas, quando irá ao ar uma edição especial de aniversário do ''Para gostar de ópera'', que é veiculado normalmente às terças-feiras, no mesmo horário. No especial, serão apresentadas aos ouvintes ''duas das maiores cantoras do século XX, Jessye Norman e Maria Callas'', interpretando peças de Berlioz e Verdi, respectivamente. Para Fernanda, que gosta do gênero desde pequena, quando ''jogava vôlei, bolinha de gude e ouvia música erudita'', o que causava certo espanto na família, não dá para viver sem usufruir dessa arte. Citando o filósofo Nietzsche, ela reafirma: ''sem música, a vida seria um erro''.

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